Apenas sete dos 54 estados africanos tiveram governos paritários, com o mesmo número de ministros e ministras mulheres.
Em Moçambique, o Presidente Filipe Nyusi constituiu o seu primeiro e até aqui único Governo paritário, em 2022, com 11 ministros e igual número de ministras. Com mulheres em pastas estruturantes como os Negócios Estrangeiros e o Interior (Administração Interna), respetivamente Verónica Macamo e Arsénia Massingue.
Antes, em 2019, o Presidente Cyril Ramaphosa, da África do Sul, a terceira economia do continente, depois do Egipto e da Nigéria, formou um Executivo com tantos homens quantas mulheres (18/18), entre as quais Naledi Pandor, titular dos Negócios Estrangeiros.
Em 2018, o primeiro ministro etíope Abiy Ahmed também constituiu um gabinete governamental paritário (dez/dez). O mesmo fizeram os presidentes do Rwanda, Paul Kagame e das Seychelles Danny Faure que nomearam executivos com 13/13 e 5/5.
O primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, em 2014, escolheu para governar a Guiné-Bissau oito ministros e o mesmo número de ministras, com Cadi Mané como ministra da Defesa Nacional.
Indo mais longe, em 2011, José Maria Neves, à época primeiro-ministro, formou o primeiro e (ainda) único Governo cabo-verdiano e africano com mais mulheres (58%) que homens (42%), com as Finanças lideradas por Cristina Duarte, atual conselheira do secretário-geral da ONU para África.
Neste momento, a Tanzânia é o único país africano com uma mulher na liderança do Estado. Samia Suluhu Hassan, então vice-Presidente, ascendeu ao cargo, em 2021, após a morte do Presidente John Magufuli.
Outras quatro mulheres africanas conquistaram a Presidência, desde o início das independências na década de 50 do século passado.
De 2018 a outubro passado, Sahle-Work Zewde foi Presidente da Etiópia, eleita pelo parlamento, em substituição de Mulatu Wirtu, que apresentara a sua demissão, num país de sistema de governo parlamentarista, onde a/o Chefe de Estado tem responsabilidades essencialmente simbólicas e honoríficas.
Ameenah Gurib, das ilhas Maurícias, foi a segunda mulher africana eleita Presidente do país, função que desempenhou entre 2015 e 2018, altura em que se demitiu por causa de um escândalo financeiro.
Tal como Samia Hassan, no Malawi, Joyce Banda, então vice-Presidente, chega à liderança depois da morte do Presidente Bingu wa Mutharika, em 2012 e leva o mandato até ao fim, 2014.
A primeira e até aqui única mulher africana eleita Presidente do país por sufrágio direto e universal é liberiana. Ellen Jonhson-Shirleaf, prémio Nobel da Paz 2011 pelo seu papel em prol dos direitos da mulher, governou o país até 2016, cumprindo dois mandatos.
De acordo com dados de 2023 da União Inter-Parlamentar (UIP), o Ruanda (África) tem o parlamento do Mundo com mais mulheres, 61,2%. Neste país, as candidatas a deputadas são escolhidas pelo Presidente Paul Kagame, no poder há 24 anos e que recentemente alterou a constituição para se manter no poder até 2034.
A Namíbia com 50%, Senegal 46%, África do Sul 45%, Moçambique 43%, Etiópia 41%, Angola 39%, Cabo Verde 38%, Burundi 38%, Tanzânia 37%, são os países africanos que se seguem ao Ruanda.
Em Angola, tal como em 2017, as eleições gerais de 2022 confirmaram que quanto mais longe do poder está uma formação política, também mais longe estão as mulheres nas suas listas de candidaturas ao parlamento, ou seja, a secundarização das mulheres é maior na oposição que no partido no poder.
Apesar de o MPLA, maioritário com 51% dos assentos do Parlamento, ter 56,5% de mulheres deputadas, a Assembleia angolana tem apenas 39% de mulheres, porque o segundo partido, a UNITA, tem apenas 14 mulheres (15,6%) entre os seus 90 parlamentares.
Por outro lado, segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP/2021), na África Subsariana, apenas 48 por cento das mulheres têm autonomia para tomar decisões em relação ao seu corpo.
No Senegal, a terceira maior percentagem continental de mulheres parlamentares, somente 7% das mulheres têm autonomia corporal, mostrando que a assinalável quantidade de género alcançada entre os deputados não se reflete em políticas abrangentes dos direitos humanos das mulheres.
O facto de no Ruanda, líder há mais de dez anos do ranking da taxa de mulheres parlamentares, segundo a fonte, algumas mulheres aceitarem perder o direito de negar sexo em troca de maior autonomia noutras esferas da sua vida, como na tomada de decisões familiares ou capacidade de decidir se ou quando sair de casa, demonstra a subjugação de que as mulheres estão sujeitas, ou seja, falta de liberdade de género.
Ainda de acordo com o FNUAP, na Tanzânia, as mulheres dedicam cinco vezes mais tempo a tarefas domésticas do que os homens.
Em Angola, onde vigora uma lei que penaliza a prática do aborto com pena de prisão de quatro a dez anos, a você-presidente e 33% dos membros do Governo são mulheres.
Contribuirão para a igualdade de género, mulheres que em espaços de poder fecham os olhos e silenciam a violência obstétrica sobre grávidas, ignoram a discriminação salarial em função do género e que se mantêm em silêncio perante a violência no namoro, o crescimento da prostituição infantil, resultado da pobreza e da falta de escola como acontece em Angola?
De que igualdade de género se fala quando essas mulheres são instrumentos de reprodução do discurso sexista e/ou misógino e apoiantes de leis castradoras das mulheres, nomeadamente de criminalização das mulheres que abortam?
Como contar com mulheres que, como guardiãs partidárias, e do chefe do partido, são incapazes de denunciar e condenar colegas-homens pedófilos, estupradores, que batem e violam mulheres, legitimando o “direito de bater na mulher”?
O aumento de mulheres em espaços de poder em África, contrariamente ao que seria expectável, não se traduz necessariamente na melhoria de políticas de género. As mulheres africanas são muitas vezes usadas para “embelezar” as estatísticas, para agrado da Comunidade Internacional. São também nomeadas porque, tidas como politicamente menos ambiciosas, representarão menos perigo concorrencial para os homens que detêm o poder.

