Letizia Battaglia: Passion Justice Freedom

Aperture Foundation,
1999

Lívia Apa

Nasceu em Nápoles. É investigadora, com trabalho na área dos estudos culturais dos países de língua oficial portuguesa. É também tradutora, tendo publicado em italiano, entre outros, Mia Couto, Ondjaki, Ruy Duarte de Carvalho, Mário Cesariny, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Tavares. Faz parte da direcção do Archivio Memorie Migranti de Roma. Colabora com a revista Gli Asini de Roma.

Consta que pouco antes de morrer Letizia Battaglia tenha emitido um grito. Um último gesto para cortar o silêncio, quase metáfora do sentido profundo da sua experiência terrena construída quebrando limites, retratando a violência, fosse ela da máfia, da injustiça ou dirigida contra as mulheres. Fotografou incansavelmente mulheres, poucos homens entre os quais o intelectual italiano mais erético Pier Paolo Pasolini, gostava especialmente de tirar retratos de meninas naquela idade de passagem por volta dos dez anos em que elas já não são exatamente crianças e em que se preparam a uma certa perda de inocência, muitas vezes abrupta, devido, em alguns casos, a um certo olhar masculino que logo capta a mudança do corpo.

 

Letizia Battaglia estava convencida que as mulheres tinham o dever, não apenas o direito de entrar em jogo, de estar presentes mesmo na administração do poder. A forma como as mulheres geriam o poder, mesmo dentro do sistema da máfia, sempre cativou a atenção dela. Numa entrevista declarou que “os homens sozinhos não conseguem mudar o mundo porque falta a outra parte do mundo e o que é preciso governar juntos.”. Um mundo em comum, livre dos vestígios de uma cultura patriarcal que ela experimentou na sua própria carne, tanto na educação familiar como durante o seu primeiro casamento. Dessas duas experiências ficou uma marca que a levou não apenas a ser sempre solidária para com as mulheres, mas também curiosa de todas as formas de vida que elas são capazes de tecer na sua cidade, Palermo, como no resto do mundo. Letizia Battaglia nunca foi uma feminista de teorias porque nunca lhe interessou uma teoria que não estivesse ligada à acção e à capacidade de produzir mudança dentro da sociedade. Foi nessa perspectiva que se aproximou à fotografia que nunca foi para ela um mero exercício estético ou apenas técnica, mas sim um instrumento culturalatravés do qual intervir na sociedade. Nasceu e viveu quase sempre em Palermo, uma realidade extrema como a definiu o juiz anti-mafia Roberto Scarpinato e foi graças ao imenso arquivo das fotos da Letizia que esse juiz conseguiu comprovar as amizades suspeitas de um dos mais influentes políticos italianos do século XX, Giulio Andreotti, conseguindo levar a tribunal. Letizia trabalhou durante muitos anos no jornal L’Ora eatravés das fotos mostrou o escândalo da persistência da miséria para que ninguém olhasse mais de lado. É famosa uma foto dela tirada nos anos 70 de uma mãe sentada na sua casa levando ao colo um bebé com os dedos comidos por uma ratazana. A crueldade da máfia foi outro foco, numa época em que se matavam friamente homens de lei e políticos, momento que chegou ao acme com as mortes por explosivo TNT dos juízesGiovanni Falcone e Salvatore Borsellino em 1992. Com as mulheres a fotógrafaorganizou o movimento das mulheres contra a máfia, a associação Mezzocielo, que promoveu o protesto dos lençóis brancos expostos às janelas para manifestar contra as mortes de máfia que se tornou viral em todo o país. Entrou também na vida política quando Leoluca Orlando, o “Presidente da Câmara Sonhador”, a convidou para ser vereadora da cultura. Lutou para que a cultura fosse para todos. Lutou para abrir oCentro Internazionale di Fotografia que hoje tem o seu nome e que coordenou até a sua morte em 2022.

 

Nesses dias Letizia Battaglia teria acabado 90 anos. Nunca foi tão homenageada, como agora. O Jeu de Paume acaba de organizar uma exposição no Château de Tours no momento em que acaba de fechar outra na Photographers‘ Gallery di Londra. Muitas aspublicações (catálogos, livros de entrevistas, estudos, testemunhas) sobre a sua fotografia.

 

Esse Letizia Battaglia: Passion Justice Freedom foi o primeiro catálogo internacional sobre a sua arte abrindo com chave de ouro a porta para um maiorreconhecimento da sua obra poética escrita pelos seu inconfundível olhar.