Desde um passado longínquo, o papel da mulher na evolução da humanidade, quer a nível cultural quer biológico, tem sido marcado por silêncios, por contraste às vidas dos homens que representam a generalidade das vidas dos humanos. Como sublinha a autora logo no início de Mulheres Invisíveis, “esses silêncios estão por todo o lado. (…) Tudo está marcado – desfigurado – por uma ‘presença ausente’ de forma feminina”.
Neste livro, a jornalista e activista britânica Caroline Criado Perez apresenta um estudo muito aprofundado sobre a forma como a ausência de dados específicos sobre as mulheres leva à criação de um mundo desenhado à medida dos homens, desde sempre. A obra expõe as desigualdades estruturais causadas por essa “lacuna de dados de género” e demonstra como isso afecta as mulheres, desde o urbanismo à saúde e ao mercado de trabalho.
O livro está dividido em seis partes, abordando diferentes esferas da sociedade onde a negligência em relação aos dados femininos tem impactos negativos. A autora usa exemplos práticos e estatísticas que demonstram como as políticas públicas, o design de produtos e até mesmo a investigação científica frequentemente ignoram as diferenças de género. Há aqui três temas que surgem de forma recorrente – o corpo feminino, o fardo das mulheres enquanto cuidadoras não remuneradas e a violência masculina contra as mulheres.
Um aspecto relevante é a análise sobre a segurança e a saúde das mulheres. Caroline Criado Perez demonstra como testes de segurança em automóveis utilizam maioritariamente manequins baseados em corpos masculinos, resultando em um maior risco de ferimentos graves para as mulheres caso ocorra um acidente de carro. Da mesma forma, ela expõe como os sintomas de ataques cardíacos femininos são menos estudados, o que leva a diagnósticos tardios e tratamentos menos eficazes.
Outra dimensão trabalhada pela autora tem que ver com a distribuição de responsabilidades domésticas e de cuidados que têm impacto na participação das mulheres no mercado de trabalho. A ausência de políticas que levem em conta essa realidade perpetua desigualdades salariais e de oportunidades.
No capítulo sobre os direitos das mulheres enquanto direitos humanos, Caroline Criado Perez apresenta dados que demonstram que a presença das mulheres na política tem impacto na promoção e defesa dos direitos humanos. Uma análise ao impacto da representação feminina em 19 países da OCDE entre 1960 e 2005 demonstra que as mulheres na política têm maior probabilidade de atender aos problemas que afectam o universo feminino. Mostra, por exemplo, que o aumento de apenas um ponto percentual de mulheres legisladoras aumenta o rácio de despesa educativa (o que aconteceu na Grécia, Portugal e na Suíça, por exemplo).
Numa linguagem simples, mas não simplista, acessível e didática, a jornalista intercala dados científicos com relatos e exemplos do quotidiano. A obra tem uma tónica marcadamente feminista e denuncia a desigualdade de maneira contundente, mas exageros. A base empírica dos argumentos é o ponto mais forte desta obra, porém não se tendo limitado a discursos ideológicos sobre o tema. Este facto torna Mulheres Invisíveis um livro essencial não apenas para quem se interessa por feminismo, mas também para profissionais de diversas áreas, nomeadamente para quem desenha políticas públicas.
O livro propõe ainda uma mudança de paradigma (urgente) para a construção de um mundo mais justo e que promova a igualdade de género. É de leitura fundamental para quem deseja entender e combater a desigualdade de género de forma concreta e desconstruir estereótipos de maneira fundamentada.


