Sobre o mapeamento de iniciativas de mulheres criativas / empreendedoras no setor da economia criativa em Cabo Verde

Por Matilde Dias

Matilde Dias

Cabo-verdiana,é jornalista e apresentadora na Televisão de Cabo Verde desde 2001, com uma carreira centrada na divulgação cultural. O seu actual projecto, o magazine cultural Revista, está no ar há 12 anos. Em 2018, venceu o Prémio Nacional do Jornalismo, atribuído pela associação sindical dos jornalistas. Trabalhou como produtora e entrevistadora no cinema.

A economia criativa, como setor, foi reconhecida pelo governo de Cabo Verde em 2011, em seu programa estratégico que desenhava políticas culturais para o desenvolvimento e inclusão. O contexto das artes e cultura é pleno de desafios – falta de financiamento, políticas públicas de curta duração, um mercado pequeno e com problemas de distribuição, agentes culturais que laboram em situação de informalidade.

Um outro problema é a falta de informação sobre as economias criativas. Quem são os criativos caboverdianos, onde estão e como contribuem para a economia do país? Estes dados ainda não foram produzidos. Em setembro deste ano, o Ministério da Cultura anunciou a realização de um estudo, com duração de um ano, para medir o impacto da cultura e das indústrias criativas na economia de Cabo Verde. No país, o setor da cultura ainda não é contabilizado na economia e, sem estes dados, os decisores e gestores públicos seguem sem instrumentos para a definição de políticas assertivas para o setor.

É neste contexto que surgiu o projeto de mapeamento de iniciativas de mulheres criativas/empreendedoras no setor da economia criativa em Cabo Verde. Uma iniciativa da ACEP, mentora da plataforma Futuros Criativos, para identificar 15 iniciativas lideradas por mulheres em Santiago, São Vicente e Santo Antão, as três ilhas mais populosas do arquipélago. A premissa estabelecida pela ACEP era selecionar iniciativas com alguma sofisticação e com contribuição inovadora ao segmento criativo em que se inserem.

À partida, não há um levantamento sobre estas atividades e os seus operadores e nem sobre a liderança feminina, em particular. Por isso, o primeiro passo foi recorrer a notícias e editais de concursos públicos para identificar projetos ativos nas três ilhas. Depois, foi preciso definir critérios para fazer a triagem: primeiro, identificar iniciativas pioneiras; e segundo, primar pela representatividade das várias áreas da economia criativa.

Nas três ilhas, foram abordados 15 projetos nas áreas do cinema, teatro, pintura, dança, literatura, artesanato, gastronomia, turismo sustentável, tecnologia e consultoria. Das 15 iniciativas, oito são empresas privadas, quatro resultam de iniciativas pessoais, duas são associações, além de uma entidade sem fins lucrativos. Garantem 35 empregos diretos, a maioria mulheres, um número significativo num país com uma taxa de desemprego de 10 por cento, que aumenta para 30 por cento entre as mulheres.

 

Inovação

É iniciativa de uma pintora a abertura da primeira galeria de arte do país. A Galeria e Atelier de Artes Plásticas Nela Barbosa abriu as portas em 2015, na cidade da Praia. Num país em que os artistas se debatem com dificuldades para ter espaço de produção e exibição de suas obras, Nela Barbosa inovou ao ampliar o seu ateliê para fundar uma galeria com exibição de obras próprias e de outros artistas, além de promover ações de formação e visitas guiadas a estudantes.

Há poucas instalações disponíveis para exposições de arte na capital do país, ainda por cima com boas condições de espaço e iluminação. Desde 2015, a Galeria já acolheu mostras de artistas como Tutu Sousa, Sidney Cerqueira, Leontina Ribeiro, Domingos Luisa, Paulo Pina e Joaquim Semedo.

Inovação é o mote da Come In Cabo Verde, uma Startup fundada por Cátia Lush Sequeira, formada em comunicação e relações públicas. Com sede em Mindelo, a Come In é uma plataforma que divulga os conteúdos culturais produzidos em Cabo Verde, desde eventos e projetos de lazer, artes e cultura. As informações estão em três canais: um website, as redes sociais e um aplicativo disponível, de forma gratuita, no Play Store desde dezembro de 2022. A iniciativa vem preencher uma lacuna, que é a comunicação integrada de eventos para emigrantes e turistas. E, ao mesmo tempo, cria um serviço novo para os promotores de eventos. Por outro lado, é notável que Lush Sequeira vem da área das relações-públicas para liderar um projeto na área da tecnologia, com a criação do primeiro aplicativo do país que dá acesso a informações de cariz cultural e turístico.

Na vizinha ilha de Santo Antão, identificamos um outro projeto liderado por uma mulher e que imprime inovação ao setor em que se insere. Trata-se da D Rome, uma empresa familiar de produção de aguardente de cana, mel de cana e licores, fundada em 1987 pelo agricultor Jon D’ Rome, em Ribeira da Torre. Por motivos de saúde, em 2020, o patriarca da família passou o comando do trapiche para os nove filhos, que criaram a empresa Chichina D’Rome. À frente está uma das herdeiras, Joanita Fortes, uma professora de filosofia que se tornou a única mulher da ilha a comandar o negócio do trapiche em Santo Antão, um meio tradicionalmente dominado por homens. Na lista de funcionários, conta sobretudo com mulheres, que são o principal rosto do desemprego em Santo Antão.

Não obstante uma resistência inicial, pelo fato de ser mulher, Fortes garante que a empresa está a crescer, a ganhar mais clientes, inclusive de regiões mais distantes. De tal forma que tem na forja um projeto de expansão com a construção de um centro de produção de raiz, uma infraestrutura mais ampla e moderna, com engarrafamento automatizado, cozinha industrial e uma loja.

Ainda no quesito inovação, o levantamento dá visibilidade à maior iniciativa literária do país. A antologia literária “Mulheres e Seus Destinos” é um projeto de Lena Marçal, autora e professora de francês reformada. O mote é a publicação de contos, poemas, ilustrações inéditos e assinados por mulheres. Já foram publicados cinco volumes, com a participação de mais de 800 mulheres, sobretudo autoras de primeira viagem.

O mercado editorial em Cabo Verde é pequeno e publicar é caro. Há poucas editoras e muitos autores com escritos fechados na gaveta. Para as mulheres, a literatura é mais do que um desejo pessoal, é um espaço de expressão e afirmação, a primeira área artística em Cabo Verde, além da música, onde elas ganharam espaço de intervenção pública. Publicar na coletânea “Mulheres e Seus Destinos” é gratuito, o que alarga o leque de participação.

 

Contas difíceis

Das iniciativas, percebe-se que, em todos os 15 casos, os projetos refletem as histórias de vida das mulheres que as lideram. A AMUPAUL, Associação das Mulheres do Planalto Leste, na ilha de Santo Antão, foi criada para superar a exclusão das mulheres das tomadas de decisão nas oito assciações existentes na região. O Planalto Leste localiza-se num dos municípios mais pobres do país. Cerca de 50 por cento da sua população vive abaixo do limiar da pobreza e este número chega a 63 por cento entre as mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.

A estratégia da AMUPAUL, formada por 40 associadas, é criar um projeto como solução para cada problema. Atualmente, desenvolve iniciativas nas áreas de turismo sustentável, agroecologia e gastronomia, com financiamento de parceiros internos e externos. No entanto, o seu quotidiano é a gestão de contas difíceis. O emprego no alojamento turístico é sazonal, a seca reduziu drasticamente a produção de doces e licores e a emigração de mulheres deixa a associação desfalcada.

A sustentabilidade financeira é também o calcanhar de Aquiles da Xpressá Escola de Teatro, fundada pela professora e atriz Patrícia Silva na ilha de São Vicente. 2023/2024 foi o ano letivo mais intenso. Montou cinco turmas e um grupo de teatro residente, num total de 70 participantes, que apresentaram seis espetáculos e performances. Entretanto, não há garantias de que possam repetir essa dinâmica. A escola trabalha sem financiamento, quer de instituições públicas ou privadas, e os dois professores não recebem salário. Por outro lado, os dois professores têm empregos em outras áreas, o que limita a sua disponibilidade na montagem da grelha de horários. Neste cenário, não há possibilidade de abrir novas turmas, apesar da demanda. Com o curso de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo suspenso em 2024, a Xpressá apresenta-se como única escola a oferecer cursos de introdução ao teatro a crianças, adolescentes e adultos na ilha de São Vicente.

Em termos de financiamento, há projetos que dependem dos editais do Ministério da Cultura para manter as portas abertas. Um exemplo é a Escola de Dança Ballet Milá, localizada no Porto Novo, em Santo Antão. Uma iniciativa criada em 2021 pela bailarina e professora Milena Tavares, hoje com 52 alunos, dos três aos 14 anos. A escola não garante o sustento da professora, que trabalha como guia turística para ter uma fonte de rendimento mais segura. Os seus únicos parceiros são o Ministério da Cultura, que lhe atribui uma subvenção, e a câmara municipal, que lhe cede um espaço para as aulas.

Outro exemplo é a Escola Dança & Arte, na cidade da Praia, uma iniciativa da bailarina e professora Gorreth Vaz, fundada em 2013. Trabalha com 145 alunos, entre crianças e adolescentes, além de um pequeno grupo de adultos. Desde 2014, a escola conta com o apoio do Ministério da Cultura. O programa Bolsa de Acesso à Cultura permite integrar 22 alunos de famílias de baixa renda que, de outro modo, não poderiam atender às aulas de dança. Este financiamento garante o pagamento do aluguer de um espaço para as aulas. Entretanto, a ambição da mentora da escola é a construção de um espaço próprio para expandir as atividades.

 

Expansão

Cinco projetos encontram-se em situação de estabilidade e com planos de expansão. É o caso da Mamdyara, uma empresa de produtos naturais e artesanais, fundada em 2004 por Roxana Monteiro Lima, natural da Argentina com raízes cabo-verdianas. Especialista em terapias naturais, fundou a primeira marca de cosmética natural de Cabo Verde. 20 anos depois, a meta é expandir a produção para atender à demanda, já que a marca está a angariar revendedores, como as lojas dos aeroportos internacionais, hotéis e centros de estética.

Na mesma linha, a Alliance Consult tem planos para chegar a outros mercados no continente africano. A empresa foi fundada por Ana Rita Pereira e Sara Pires, em 2022, unidas na vontade de aliar a gestão de projetos com a sustentabilidade ambiental e social. Trata-se de uma empresa de consultoria especializada em inovação, transformação digital, gestão da sustentabilidade e marketing, voltada para os PALOP. Até agora, desenvolveu projetos para empresas de Cabo Verde e Angola. A ambição é expandir a carteira de clientes para outros pontos do continente africano.

Expansão também é a palavra de ordem para Café Verde, uma cafetaria e casa de pasto localizada no Mercado Municipal de São Vicente. A fundadora e gerente Evelise Gomes trabalha exclusivamente com mulheres, tanto na aquisição de matéria-prima e produtos de pastelaria, como na equipa de funcionárias. 2024 é um ano para vencer desafios, nomeadamente a expansão do negócio para outras ilhas. Gomes tem intenção de abrir um Café Verde em Santo Antão e assim levar este conceito, que considera estar consolidado, para outros pontos do país.