Emmanuel Dogbevi foi o primeiro repórter a denunciar o problema do e-waste, lixo elétrico e eletrónico, em Agbogbloshie, nos arredores de Acra. Chega a emocionar-se quando fala de jornalismo. A vida talvez fosse mais fácil se ele escolhesse outro caminho mas ir atrás da história que pode mudar vidas é mais do que uma paixão. É um chamamento…
O reputado jornalista de investigação criou a NewsBridge Africa, uma organização não governamental para formar jovens jornalistas. Alguns dos temas que relatou permitiram revelar crimes, negócios ilícitos, injustiças. Valeram-lhe prémios e inimigos.
Já lá vão mais de duas décadas desde que começou a investigar esta concentração de lixo tóxico. Mas como e porquê aconteceu logo aqui, no Gana, um país com tantos recursos?
Em 2007, eu «rebentei» com esta história sobre o lixo elétrico e eletrónico no Gana. Eu tenho nariz para as notícias, por assim dizer. Estava a terminar o curso de Sociologia na universidade. Eu acho que um mês depois de me ter licenciado, senti que era hora de voltar às notícias. Estava sempre à procura de uma história para escrever. E foi quando eu percebi que isto, do lixo elétrico e eletrónico estava a acontecer. Mas eu não entendia completamente o que era. Via jovens a carregar computadores antigos em trolleys. Eles puxavam e empurravam carrinhos por toda a cidade. E, é claro, em Agbogbloshie, nós víamos estes jovens a partir os equipamentos, a retirar os fios. Então, eu decidi ler um pouco sobre o assunto, porque, é claro, não sabia muito sobre isso naquela época.
E eu também não tinha internet naquela época. Mas nós usávamos cibercafés onde se pagava e passava talvez 30 minutos ou uma hora a pesquisar. Eu descarreguei muita informação. Aí eu percebi bem o que era isto. E, quando eu googlei, não havia nenhum relatório sobre o Gana, naquela época. Basicamente, expliquei aos ganeses os perigos do lixo eletrónico e como, se nós não fizéssemos nada, ele teria impactos em termos do ambiente e da saúde.

E quase 20 anos depois, como evoluiu?
Bem, o lixo eletrónico ainda vem para a Gana, mas muita coisa aconteceu desde que eu cobri a história. Devo dizer que, quando revelei isto, eu não parei. Continuei sempre a escrever. Fiz reportagens de rádio, de televisão, reportagens fotográficas. Eu fiz, literalmente, tudo o que se possa imaginar. Publicações em redes sociais, no Twitter ou no Facebook. Fiz muita investigação, fiz documentários, eu trabalhei com media estrangeiros. Enquanto no país não havia reação imediata – como seria de esperar – para uma situação problemática como o e-waste, a consciência na comunidade internacional cresceu porque a minha história trouxe muitos órgãos de comunicação social estrangeiros ao Gana para fazer reportagem. Então, a atenção da comunidade internacional virou-se para este problema. E, em 2016, o Parlamento do Gana aprovou a lei de gestão do lixo elétrico e eletrónico que foi um grande passo. E, como parte da lei, um instrumento legislativo foi aprovado para taxar produtos eletrónicos que chegam ao país para que esse dinheiro possa ser usado para limpar o sistema do lixo. Dito isso, o governo alemão também deu alguns fundos, acho que são uns 20 ou 30 milhões de euros, e foi construída uma fábrica de reciclagem. Foi inaugurada em novembro ou dezembro do ano passado para reciclar o lixo eletrónico no Gana. Mas, ainda assim, poucos ganeses têm consciência. Olhando para a expansão e crescimento da tecnologia, há mais telefones móveis na Gana do que humanos. A população de Gana é de aproximadamente 30 milhões de pessoas, mas há mais de 30 milhões de telefones móveis. Mas a pergunta sempre foi: “quando o seu telefone móvel morre, para onde vai ele”? Muitas pessoas usam computadores, laptops e tal. Quando eles chegam ao fim da vida, para onde os envia?

As pessoas não pensam nisso…
Sim, as pessoas não pensam nisso, de novo, porque não há educação sobre este tema. Nós construímos fábricas de reciclagem e fazemos muito barulho sobre isso. Quantos cidadãos sabem, por exemplo, onde colocar o laptop, a câmara, o telefone móvel, o frigorífico estragado e que não tem arranjo? As pessoas não têm ideia.
Mas vocês encontraram provas disso? Esses produtos chegam ao Gana já estragados? Ou vêm primeiro como produtos em segunda mão e depois, quando já não funcionam, alguém os deita fora?
Na maioria dos meus trabalhos, eu descobri que alguns destes artigos são enviados para aqui, porque em uma ou duas das histórias que eu fiz, apurei que pessoas no Reino Unido foram acusadas e presas. Trabalhavam numa unidade de reciclagem para onde as pessoas enviavam os laptops fora de uso, computadores e equipamentos eletrónicos para serem reciclados, e eles recebiam pagamento do governo para fazê-lo, certo? Mas depois eles vendiam esses produtos a exportadores que os traziam para a Gana. Aqui poucas pessoas podem pagar equipamentos novos e então eles acham que os equipamentos usados são mais baratos. E a verdade é que alguns desses equipamentos podem ser reciclados e reutilizados, certo? Mas eles traziam esses que não podiam ser reciclados, que estavam completamente fora de vida. Foram presos! Algumas outras investigações mostraram que esses equipamentos vêm do Ocidente. Então o Ocidente está a limpar-se em África. Eu acho que, embora os governos do Ocidente se sintam constrangidos com estas ações, eles não fizeram o suficiente para detê-los, eles não fizeram o suficiente para enviar um sinal forte aos traficantes de que isso é errado, é ilegal, é moralmente errado. É moralmente errado trazer lixo eletrónico para África porque nós não temos a capacidade de tratá-lo. Nós construímos uma unidade de reciclagem no Gana, mas o Gana não tem a capacidade de lidar com os efeitos secundários deste lixo eletrónico. Contém químicos perigosos. E isso predispõe as pessoas a leucemias, a outros cancros e assim por diante. Uma pesquisa também descobriu que os químicos se espalharam nas águas subterrâneas, numa área grande e isso, na verdade, põe em perigo a saúde das pessoas. Então, é inaceitável para o Ocidente não fazer muito mais do que está a fazer. Dispositivos usados não são o mesmo que dispositivos fora da vida. E as pessoas que estão a trazê-los sabem a diferença. Mas as pessoas aqui não sabem. Recebem doações de equipamentos usados e depois vão para casa e eles não funcionam e não podem ser reparados. Como é que interpreta isso? Deve ser deliberado. Então, a Europa, o Ocidente devem sentir-se moralmente obrigados a fazer muito mais do que estão a fazer e a garantir que dispositivos usados de fora da vida não sejam enviados para países como a Gana.
Isso é injustiça ambiental, não é?
Absolutamente, isso é injustiça ambiental.
Ou racismo, podemos dizer?
Bem, não é tão simples dizer que é racismo. Mas, claro, é fácil dizer que isto é injustiça ambiental.
Esta entrevista faz parte da série «Despojos de Nós», apoiada pela RTP, pela ACEP e pelo EURODAD


