António Jorge Goncalves

 

Media

Susana Sampaio Dias

“Sem liberdade de imprensa, não teremos liberdade alguma. Uma imprensa livre não é uma escolha, mas uma necessidade.” – António Guterres

Com estas palavras proferidas no Dia Mundial da Liberdade da Imprensa em 2024, o secretário geral das Nações Unidas sublinhou a relevância dos media para uma democracia saudável. Contudo, nestas mesmas palavras sente-se o desassossego trazido pelos graves desafios que o setor enfrenta. A evolução tecnológica das últimas décadas, a digitalização da informação e a ubiquidade das plataformas de comunicação transformaram profundamente o papel dos media, trazendo a promessa de uma esfera pública global de diálogo e visibilidade, essenciais para o desenvolvimento. Mas neste cenário existem também adversidades substanciais. É urgente reconhecê-las e superá-las, para que o potencial dos media seja realizado.

Primeiramente, os media fomentam a educação e a formação de conhecimento. As plataformas digitais contribuem para a democratização da educação, oferecendo conteúdos ou cursos online, e permitindo que pessoas em locais remotos ou com poucos recursos usufruam de materiais educativos de qualidade. As rádios e televisões comunitárias são ainda ferramentas poderosas para a educação, desempenhando um papel essencial entre as comunidades locais, disponibilizando informações sobre saúde, ambiente, direitos humanos, práticas agrícolas sustentáveis, entre outros temas.

Os media são centrais na promoção dos direitos humanos e igualdade, dando voz  a grupos historicamente marginalizados, e alertando para questões de injustiça social. Ao contar histórias que desafiem estereótipos e ao promover narrativas inclusivas, os media sustentam a transformação das normas sociais e culturais, combatendo o racismo, sexismo, homofobia, xenofobia, violência doméstica, discriminação contra pessoas com incapacidade e para a promoção dos direitos das mulheres e a visibilidade das questões LGBTQI+. As redes sociais, por sua vez, oferecem uma arena discursiva onde os utilizadores são produtores de conteúdo, fortalecendo a participação e promovendo o ativismo. Neste sentido, os media são fundamentais para a consciencialização e mobilização em torno de questões globais como a crise climática, a pobreza, saúde e crises humanitárias. Além disso, a cobertura jornalística de desastres naturais, guerras e pandemias tem a potencialidade de provocar a empatia e suporte para ações humanitárias.

Os media têm também o poder de promover a transparência e boa governação, e de lutar contra a corrupção. O jornalismo independente de investigação é fundamental para a responsabilização de governos e das empresas, expondo casos de crimes ou negligência. Em contextos democráticos, os meios de comunicação desempenham um papel de vigilância, assegurando que as autoridades ajam no melhor interesse da população.

Por fim, os media apoiam o desenvolvimento económico e o empreendedorismo, oferecendo plataformas para mercados emergentes, novos modelos de negócios e startups, estimulando economias locais e criando novas oportunidades de emprego.

Contudo, os meios de comunicação enfrentam hoje desafios sem precedentes que põem em risco a sua capacidade democrática.

Um dos problemas mais preocupantes é a proliferação de informações falsas e desinformação, particularmente propagadas pelas redes sociais. Este alastramento visa distorcer a realidade, promover comportamentos prejudiciais e discriminatórios, criar pânico e alimentar divisões sociais. A desinformação prejudica a democracia, influenciando negativamente políticas públicas e dificultando a adoção de comportamentos saudáveis ou sustentáveis, como no caso das campanhas antivacinação ou a negação das mudanças climáticas. Por conseguinte, as plataformas digitais têm contribuído para a polarização das audiências, onde as pessoas tendem a envolver-se apenas com conteúdos que reforçam suas crenças e ideologias. Este é um fenómeno chamado “câmaras de eco”, o que dificulta a formação de  um entendimento comum sobre questões centrais, como a crise climática, direitos humanos e justiça social. Adicionalmente, o uso indevido e a falta de regulação para Inteligencia Artificial agrava preconceitos existentes e amplifica a desinformação e a manipulação em larga escala através, por exemplo, de  deepfakes (vídeos ou áudios falsificados). As redes sociais, embora ofereçam um meio de expressão alternativo,  também geram ambientes tóxicos, amplificando discursos de ódio  e extremismo. A pressão social gerada por essas plataformas também pode afetar a saúde mental, especialmente entre os jovens, tornando-se um obstáculo ao bem-estar social.

Além disso, e apesar da expansão da conectividade digital, muitas populações enfrentam barreiras ao acesso à internet e a dispositivos modernos, especialmente em regiões rurais e em países em desenvolvimento. As desigualdades no acesso à informação podem agravar disparidades económicas e sociais, já que as pessoas sem acesso a estes recursos ficam em desvantagem em termos de educação, emprego e participação política.

Por outro lado, mantém-se – e em vários casos tem-se agravado – a tendência para a manipulação da informação e controle dos media e censura por governos ou monopólios empresariais, de modo a reforçar narrativas que favorecem seus próprios interesses, em detrimento do bem-estar social e global. Esta manipulação acontece em contextos democráticos ou não democráticos, inclui a intimidação e violência contra os jornalistas, limita a liberdade de imprensa, e impede ou dificulta o jornalismo independente e de investigação

A evolução tecnológica trouxe ainda ameaças à privacidade e segurança de dados pessoais, com a recolha massiva de dados por plataformas digitais com interesses de vigilância e comerciais. O uso inadequado de dados pode resultar em abusos, discriminação e exploração, especialmente em países onde as regulamentações sobre privacidade e proteção de dados são inexistentes ou frágeis.

Por último, e não menos importante, deve pensar-se os desafios éticos do atual modelo de negócios dos meios de comunicação, maioritariamente baseados em lucros derivados das receitas de publicidade. A busca incessante de audiencias e cliques dá a prioridade a conteúdos sensacionalistas, em detrimento de  informações de qualidade. Consequentemente, os media adotam uma abordagem superficial das questões sociais, prejudicando o desenvolvimento de uma cidadania informada e envolvida.

O futuro dos media no contexto do desenvolvimento global pode ser promissor, mas exige um esforço coletivo para combater a desinformação, a desigualdade digital, o controle e a censura, destacando a responsabilização das plataformas digitais e  o reforço dos enquadramentos legais. É necessária a colaboração entre governos, organizações internacionais, empresas de tecnologia e organizações da sociedade civil para criar um ambiente mediático mais transparente, inclusivo e ético. Além disso, é essencial promover a literacia mediática, para que os cidadãos possam avaliar criticamente as informações que consomem e participar de um debate público construtivo. Com isso, os media poderão cumprir seu papel de catalisadores do desenvolvimento global, promovendo uma sociedade mais justa, informada e conectada.

 

 

A batalha dos media pelos media

Joana Azevedo Viana

Em tempos de vertiginosas mudanças, sete anos parecem uma eternidade. E foi há uma eternidade que Dean Baquet, então diretor executivo do New York Times, defendeu uma mudança de paradigma no jornalismo. “Não é uma decisão política cobrir uma história extraordinária de uma forma extraordinária”, disse ao receber, na redação do diário, um grupo de jornalistas estrangeiros1 no qual eu me incluía.

Corria o ano de 2018, o segundo da primeira administração Trump, e os media estavam à deriva, entregues ao caos, sem saber como lidar com um presidente que mente sem contraditório e que estava, então como agora, envolto em inúmeros escândalos. “Quem éramos nós, quem queríamos ser”, já cantava Sérgio Godinho nos idos anos 80 – uma dúvida existencial que, décadas depois, volta a impor-se aos jornalistas e aos media, do lado de lá e do lado de cá do Atlântico, como no resto do mundo.

Quem são hoje os media e o que querem ser? Em tempos de vertiginosas mudanças, a pergunta é mais urgente do que nunca – e deve forçar-nos a um profundo exame de consciência. Investigações recentes como uma de João Pinhal2, sobre como os media portugueses têm “muitas vezes” servido de “braço armado da narrativa do Chega”, ou uma outra da Authoritas, sobre como a Inteligência Artificial está a reduzir o tráfego em sites noticiosos em quase 80%, devem preocupar-nos a todos. Mas em vez de nos abandonarem ao desespero, podem e devem servir de combustível para a mudança.

Debates como valores vs. sustentabilidade não são novos, mas revestem-se hoje de uma importância extrema, quer no contexto da ascensão do populismo, que tem nos jornalistas o seu principal inimigo, quer no contexto de guerras como a de Israel contra Gaza. Alguns dirão até que são mais importantes do que nunca, desde que Tucídides, um dos pais do jornalismo moderno, se dedicou à recolha de factos e testemunhos para relatar com precisão a guerra do Peloponeso, no século 400 a.C.

Mais de dois milénios depois – uma verdadeira eternidade – a busca pela verdade parece ter dado lugar a outros faróis, mas uma variável permaneceu constante desde a Grécia Antiga: a imutabilidade dos factos, independente de “verdades alternativas”. A grande pergunta, então, é de que forma podem os media não perder esse farol de vista, nesta era de polarização e discurso de ódio, de desinformação e bots.

Numa conversa recente com Maria Ressa3, cuja cobertura da administração Duterte foi reconhecida com o Nobel da Paz em 2021, a jornalista filipina referia precisamente esta questão como uma das grandes lições que o seu país aprendeu desde 2016, o ano da ascensão de Duterte – e de Trump. “Quando se trava uma batalha pelos factos”, disse-me com um sorriso, “o jornalismo torna-se ativismo”.

Alguns poderão discordar, sob o argumento de que é perigoso esbater a linha entre jornalismo e ativismo. Mas não nos deixemos desorientar pela semântica. É um facto que estamos numa guerra pelos factos – e é sobretudo nas mãos dos media que estão as armas para os defender.

  1. https://worldpressinstitute.org/were-not-going-to-war-were-going-to-work/
  2. https://voxeurop.eu/en/portugal-far-right-chega-journalism/
  3. https://cnnportugal.iol.pt/maria-ressa/nobel-da-paz/maria-ressa-nobel-da-paz-estamos-a-caminho-de-outra-era-de-fascismo-em-que-o-controlo-sobre-nos-e-o-controlo-da-mente/20250704/68669c31d34ef72ee447e8cb