A Armadilha do Autoengano – Uma Visão Crítica das Relações entre a África e a Europa

Carlos Lopes
Ed. Tinta-da-China
2022

Carlos Sangreman

Licenciado em Economia no ISEG e doutorado em Estudos Africanos no ISCTE. Professor aposentado na Universidade de Aveiro e investigador e dirigente do CEsA. Tem desenvolvido consultoria internacional nos PALOP e Timor-Leste. Foi assessor para a cooperação do MTSSS (1998/03) e do Fórum do SENEC (1998/03; 2008/12). É autor de artigos e livros sobre as temáticas do desenvolvimento.

Contextualização

Carlos Lopes é um economista guineense, com papel de destaque nas Nações Unidas e na União Africana onde assumiu vários cargos de direção institucional, como professor na Universidade de Cape Town e fellow nas Universidades de Londres e de Cambridge no Reino Unido, presidindo neste momento à Fundação Africana do Clima.

A obra surge num momento de renovadas tensões geopolíticas e desigualdades estruturais persistentes entre a Europa e os países africanos, com o afastamento da influência das antigas potencias coloniais, um número alto de guerras e conflitos armados e um reforço de ligação à China e à Rússia do regime de Putin. Enquadra-se no esforço crescente de pensadores africanos contemporâneos que questionam o papel das narrativas ocidentais no desenvolvimento do continente.

A indicação de referências em cada capítulo e os quadros de síntese sobre Acordos chave UA-UE, visões contraditórias pós-2020, uma lista de iniciativas europeias para África entre 1972 e 2022, e alguns gráficos ao longo da obra como aqueles sobre migrações em anexo, tornam a obra ainda mais útil.

Resumo da Obra

O autor desmonta a narrativa de que a Europa (sobretudo a União Europeia e o Reino Unido) está interessada no desenvolvimento africano de forma justa e equitativa. Analiza sobretudo o processo de imposição de políticas de ajustamento estrutural liderado pelo FMI e BM, o processo de debate á volta do Acordo de Cotonou e dos Acordos de Parceria Económica, Europa países ACP (União Europeia-África, Caraíbas e Pacifico), e exemplificando, por um lado a prática de dividir para reinar da UE e por outro a divisão dos países da UA, cuja heterogeneidade sempre implicou uma grande vulnerabilidade ao longo de todo o processo (pág.17).

O livro aborda temas como: A evolução da dependência económica e (de muitas formas) política; as táticas negociais; as negociações das medidas relativas às migrações; o papel das elites africanas na manutenção do “autoengano”; a necessidade de uma nova postura estratégica africana, sobretudo da União Africana, etc.

Não é uma obra de denúncia simples, mas sim um convite à reflexão crítica e reconceptualização das relações África-Europa, com uma crítica construtiva.

O autor não apenas denuncia, mas propõe caminhos alternativos, com base no conhecimento profundo das estruturas de poder globais, partindo do objetivo de “desvendar e esclarecer” o quadro mental de autoengano dos dirigentes de ambos os continentes envolvidos nestes processos (pág.25).

Avaliação

O livro é provocador e necessário, abordagem lúcida, fundamentação académica e coragem intelectual, especialmente para quem quer compreender África para além da visão eurocêntrica sem esquecer a ligação histórica e cultural e o legado da narrativa colonial existente entre ambos os continentes (pág.106).

Inclui capítulos com uma reflexão inovadora digna de registo como aquele que aborda a relação entre a cultura, liberdade e domínio colonial (páginas 50-58) que me parecem especialmente recomendáveis para estudantes, professores e investigadores de relações internacionais, ciências políticas, economia, e ativistas africanos e europeus interessados em justiça global.

Conclusão

A Armadilha do Autoengano pode tornar-se uma obra de referência no pensamento africano contemporâneo e um contributo importante para a descolonização das ideias.

Carlos Lopes desafia não apenas a Europa, mas também os próprios africanos, a saírem da passividade discursiva e da aceitação de modelos impostos para procurarem evoluir para uma nova era de protagonismo africano (pág. 161) construindo uma parceria com princípios e objetivos pragmáticos concretizáveis num tempo previsível (pág.87 e Figura 9, pág.264) e recusando que a economia dos países africanos seja uma extensão do mercado capitalista europeu com uma narrativa que esconde as desigualdades existentes e anula as “fantasias” e o autoengano do livre comércio e das vantagens comparativas ricardinas.

Uma leitura obrigatória para quem deseja um futuro mais justo e equilibrado entre continentes.