Evolução do Papel da Ajuda Internacional no Processo de Desenvolvimento

Sandrina B. Moreira

Sandrina Berthault Moreira é Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Setúbal (ESCE - IPS) - Departamento de Economia e Gestão, e investigadora na Business Research Unit, Grupo de Economia (BRU-IUL) e RESILIENCE (IPS). Participa em vários projectos de investigação internacionais. Os seus interesses de investigação são a macroeconomia, o crescimento económico e o desenvolvimento.

Paulo Francisco

Paulo Francisco é economista e doutorado em Estudos de Desenvolvimento. Tem desenvolvido a sua atividade em temas relacionados com a cooperação técnica e financeira bilateral com os países em desenvolvimento, incluindo o desenho de instrumentos de assistência financeira. Tem também trabalhado em temas respeitantes ao financiamento global do desenvolvimento e à atuação das instituições financeiras multilaterais.

Introdução

Os debates em torno da ajuda externa e da própria noção de desenvolvimento têm vindo a evoluir significativamente, incorporando progressivamente uma multiplicidade de fatores que extravasam o mero progresso económico. Esta expansão conceptual reflete um reconhecimento crescente da centralidade das dimensões sociais, humanas, ambientais e institucionais no processo de desenvolvimento. Se, num passado recente, crescimento e progresso eram frequentemente tratados como sinónimos, tornou-se evidente que o desenvolvimento é um fenómeno intrinsecamente multifacetado, dando origem a interpretações distintas em diferentes períodos históricos e regiões do mundo.

O presente artigo procura contribuir para esta reflexão oferecendo uma visão abrangente e comparativa do papel da ajuda externa à luz das diversas perspetivas teóricas que moldaram o pensamento sobre o desenvolvimento. Embora a literatura existente aborde em profundidade algumas destas teorias,

fá-lo, por vezes, de forma fragmentada, não oferecendo uma visão integrada e sistemática do modo como cada abordagem conceptualiza — ou omite — o papel da ajuda internacional. Em muitos casos, a ligação entre o quadro teórico e a função da ajuda não é explicitamente desenvolvida, exigindo a extrapolação lógica a partir dos princípios e pressupostos centrais de cada paradigma.

Os quadros teóricos mais frequentemente abordados incluem os modelos de crescimento keynesiano e neoclássico, bem como as abordagens tradicionais da economia do desenvolvimento, que procuram responder aos desafios específicos enfrentados pelas nações menos avançadas. A par destas, têm vindo a afirmar-se perspetivas alternativas de inspiração multidimensional, que integram preocupações de ordem económica, mas também social, cultural, política e ecológica — refletindo uma conceção mais alargada e integrada do que significa “desenvolver”.

Partindo desta diversidade teórica, o artigo examina as principais justificações, críticas e implicações associadas à prestação de Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD). São igualmente discutidas as estratégias e condições mais adequadas à maximização do impacto da ajuda no percurso de desenvolvimento dos países beneficiários. A estrutura da análise assenta na categorização proposta por Payne & Phillips (2010) e Moreira (2013), a partir da qual se organiza a leitura comparada das diferentes abordagens teóricas ao papel da ajuda.

A evolução teórica da ajuda externa: entre paradigmas de crescimento e modelos de transformação

A diversidade de interpretações sobre o papel da ajuda externa no desenvolvimento resulta da multiplicidade de paradigmas teóricos que moldaram, ao longo das décadas, o pensamento sobre o progresso das nações. Desde as primeiras formulações liberais até às perspetivas contemporâneas que integram dimensões humanas, culturais e ecológicas, a compreensão da ajuda tem oscilado entre abordagens instrumentalistas, críticas e transformadoras.

Nesta secção, sistematizam-se as principais abordagens teóricas, detalhando os seus fundamentos conceptuais, os mecanismos pelos quais entendem a função da ajuda externa e as críticas de que são alvo. A análise segue u

ma lógica histórica e temática, com base na tabela seguinte, que resume de forma comparada os traços centrais de cada paradigma.

Teoria Premissas Papel da ajuda Críticas
Clássica As atividades económicas devem ser conduzidas pelo interesse próprio e pelas forças de mercado, com uma intervenção mínima do Estado, cujo papel se deve limitar às infraestruturas essenciais e à manutenção da ordem. O setor privado lidera a atividade económica, com um envolvimento mínimo do governo. A ajuda, quando concedida, centra-se nas infraestruturas básicas ou na segurança pública, e não na transformação económica. Ao limitar a intervenção do Estado, a abordagem clássica não consegue resolver as desigualdades estruturais e as falhas do mercado nas economias em desenvolvimento.
Convergência (catch-up) Os países em desenvolvimento devem alcançar um crescimento económico mais rápido para se aproximarem dos países desenvolvidos através de uma industrialização liderada pelo Estado e pelo desenvolvimento do capital humano. A ajuda é dirigida a setores cruciais à industrialização (por exemplo, educação, transportes, banca) e a políticas que acelerem o crescimento do capital humano e das infraestruturas. Uma dependência excessiva da intervenção estatal pode impedir o crescimento do setor privado e reduzir a eficiência económica.
Keynesiana Os países poderão atingir uma trajetória de crescimento autossustentado, caso superem o hiato entre a poupança e o investimento e o défice de divisas. A ajuda preenche o hiato de divisas ou entre poupança e investimento, permitindo a acumulação de capital necessária para o arranque económico. Parte-se do princípio de que a ajuda estimula diretamente o investimento; no entanto, a ajuda apoia frequentemente o consumo, reduzindo a sua eficácia na promoção do crescimento económico.
Neoclássica A produção depende de três fatores: trabalho, capital físico e tecnologia. A produtividade marginal do capital é decrescente. A ajuda poderá financiar essencialmente o consumo, quando o efeito na acumulação de capital ou na transformação económica for limitado. Os dados empíricos sugerem que a ajuda conduz frequentemente à dependência e não aumenta significativamente a acumulação de capital ou a transformação económica.
Modernização O desenvolvimento segue um processo linear, das economias tradicionais para as modernas, preconizando o arranque através do aumento das taxas de investimento e da modernização das instituições. A ajuda catalisa o desenvolvimento através do investimento em sectores de ponta, em infraestruturas modernas e em quadros institucionais, desencadeando o crescimento económico e a expansão industrial. Não tem em conta fatores não económicos, como a estabilidade política e social, atribuindo demasiada importância ao progresso económico linear.
Subdesenvolvimento Existe uma situação de desigualdade nas relações internacionais, cujo controlo é assumido pelas nações desenvolvidas. A ajuda é vista como um instrumento para os países doadores manterem o domínio económico, reduzindo a autonomia do beneficiário e criando dependência económica. Não consideração de possíveis dinâmicas positivas da integração nos mercados internacionais.
Neoliberalismo A intervenção do governo deve limitar-se a manter a estabilidade jurídica e económica, promovendo simultaneamente o crescimento do setor privado. A ajuda deve apoiar a eficiência do mercado e as reformas estruturais. Os programas de ajustamento estrutural, associados à ajuda, devem promover a liberalização do mercado, as privatizações e a estabilidade jurídica, para aumentar a competitividade e reduzir os défices orçamentais. Os ajustamentos estruturais causam com frequência dificuldades sociais, aumentam a desigualdade e prejudicam o bem-estar público, ao atribuírem prioridade à liberalização económica.
Neo-estatismo A intervenção do Estado é crucial para selecionar e promover indústrias estratégicas, especialmente no contexto da industrialização pesada e da transformação económica. O governo planeia políticas industriais estratégicas, com ajudas que apoiem indústrias-chave, infraestruturas pesadas e instituições financeiras para impulsionar a modernização económica. O forte envolvimento do Estado na política industrial pode asfixiar a inovação e desencorajar a participação do setor privado.
Desenvolvimento humano O desenvolvimento deve centrar-se nas capacidades e no bem-estar humanos e não apenas no crescimento económico. A ajuda deve dar prioridade aos serviços sociais e à melhoria do capital humano, nomeadamente à educação, cuidados de saúde,  saneamento e transporte público, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e as capacidades humanas como elementos centrais do desenvolvimento. A concentração no bem-estar humano e não na produtividade económica poderá reduzir a ênfase no crescimento económico a longo prazo.
Desenvolvimento sustentável O desenvolvimento deve satisfazer as necessidades atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas. A ajuda apoia projetos sustentáveis do ponto de vista ambiental, energias renováveis e infraestruturas sociais, equilibrando as necessidades económicas com a preservação ecológica. Os projetos sustentáveis enfrentam frequentemente desafios de implementação, ao pretenderem equilibrar os objetivos ambientais com a necessidade de desenvolvimento económico.
Pós-Consenso de Washington Uma governação eficaz, a responsabilização e o reforço das capacidades são essenciais para o desenvolvimento. A gestão das finanças públicas e a redução da dívida são essenciais ao crescimento sustentável. A ajuda apoia a cooperação técnica, as reformas institucionais e uma melhor governação, colmatando as lacunas de capacidade que impedem o desenvolvimento e assegurando a responsabilização. A melhoria da governação e da capacidade institucional é um processo lento e os efeitos da ajuda não são imediatamente visíveis, o que suscita dúvidas quanto à sua eficácia.
Pós-desenvolvimento O desenvolvimento deve respeitar as estruturas sociais tradicionais, ao invés de impor modelos de desenvolvimento ocidentais. As práticas locais, a preservação cultural, e as abordagens baseadas na comunidade devem ser promovidas. A ajuda deve apoiar a economia tradicional, as práticas culturais e as estratégias de desenvolvimento local, contrariando o domínio dos modelos industriais modernos. Poderá não estar em consonância com a elevada interligação entre regiões existente na economia contemporânea.
Desenvolvimento global A desigualdade é transnacional, moldada por sistemas de produção globais e não por fronteiras nacionais. A ajuda deve apoiar as infra-estruturas, as redes de comunicação e a integração global para melhorar o posicionamento económico nas cadeias de abastecimento globais. A integração global pode expor as economias a choques externos, reduzindo a resistência económica nacional e aumentando a vulnerabilidade.

Tendo alcançado o seu auge numa época em que a ajuda externa ainda não era uma prática instituída, a perspetiva clássica veria esse apoio como indesejável, uma vez que sustentava que as decisões socioeconómicas deveriam reger-se, primordialmente, pelo interesse próprio e pelas forças do mercado (Smith, 1976). Nesta ótica, a atividade económica devia ser conduzida, em larga medida, pelo setor privado, com um papel muito limitado para o Estado. A intervenção pública restringir-se-ia a domínios que o mercado não consegue assegurar, como a defesa, a ordem pública ou a construção de infraestruturas essenciais, mas não lucrativas — estradas, pontes ou vias navegáveis. O apoio estatal à educação seria, também ele, mínimo e direcionado apenas às camadas sociais mais desfavorecidas.

Em contraste, as abordagens da convergência (ou catch-up), ancoradas na ideia de que os países em desenvolvimento devem crescer mais rapidamente do que os países industrializados, defendem uma industrialização liderada pelo Estado e enfatizam o papel do capital humano como motor do progresso (List, 1991). A ajuda externa, nesta lógica, é valorizada como instrumento catalisador de transformação económica, sendo canalizada para setores estratégicos como a educação, agricultura, indústria, justiça, transportes e banca. Estas teorias promovem uma abordagem multissetorial e defendem medidas como o apoio à importação de bens de equipamento, a proteção da propriedade intelectual, a melhoria das infraestruturas e a promoção da mobilidade qualificada.

As teorias keynesianas do crescimento colocam a tónica na procura agregada e no papel ativo do Estado. A ajuda externa é aqui encarada como mecanismo de financiamento do arranque económico, colmatando os défices de poupança interna e de divisas. A acumulação de capital é vista como o motor principal do crescimento, mas reconhece-se que, em contextos de pobreza generalizada, as famílias e os governos têm dificuldade em gerar poupança suficiente. Nestes casos, a ajuda externa surge como uma solução indispensável.

No âmbito destas abordagens, o modelo do dual-gap (Chenery & Strout, 1966) tornou-se uma referência incontornável. Tal como sublinhado por Riddell (1987), este modelo identifica dois constrangimentos principais ao crescimento: o hiato entre a poupança e o investimento e o défice da balança de pagamentos. A ajuda externa pode, assim, desempenhar um papel crucial, atuando sobre o fator mais restritivo — seja ele a escassez de divisas ou a falta de poupança interna. Ghatak (2010) aprofunda esta ideia, observando que o impacto da ajuda depende de qual destes constrangimentos predomina.

No entanto, o modelo do dual-gap também tem sido a

lvo de críticas. Bird (1985) contesta a suposição de não-substituibilidade entre recursos internos e externos, defendendo que políticas de substituição de importações ou de promoção das exportações podem aliviar as restrições cambiais. Outros autores sublinham que a ajuda nem sempre é aplicada a investimento produtivo, servindo frequentemente para financiar o consumo (Easterly, 2003), ou substituindo a poupança pública (Degnbol-Martinussen & Engberg-Pedersen, 2005).

A atenção ao tipo de capital (mais do que ao seu volume) e às condições políticas e institucionais dos países beneficiários levou ao reconhecimento da importância de categorias específicas de ajuda, como a cooperação técnica, associada à valorização do capital humano como fator estruturante do desenvolvimento.

Na sequência da crise da dívida dos anos 1980, surgiram perspetivas neo-estruturalistas que identificaram um terceiro hiato — entre despesa e receita pública — como o principal entrave ao crescimento (Moreira, 2005). Nesta lógica, a ajuda externa poderá assumir-se como suplemento orçamental vital para garantir a estabilidade macroeconómica.

As abordagens neoclássicas, por seu turno, tendem a considerar que a ajuda apenas se justifica se contribuir para o aumento do consumo — imediato ou futuro — sobretudo em economias em estado estacionário. A definição do que constitui “consumo” ou “investimento” é aqui central. Por exemplo, o financiamento da educação poderá ser enquadrado como investimento em capital humano ou, alternativamente, como despesa corrente. Estudos recentes apontam ainda que a ajuda pode atrair investimento direto estrangeiro, funcionando como sinal de confiança (Tian, 2024).

Já a teoria da modernização, popularizada por Rostow (1960), propõe um modelo linear de desenvolvimento que culmina numa fase de “take-off”, suportada por elevados níveis de investimento, setores industriais dinâmicos e instituições robustas. A ajuda deve ser dirigida aos países que demonstrem condições favoráveis à transição para o modelo ocidental de desenvolvimento. Os investimentos externos, neste quadro, devem fomentar um ciclo virtuoso de crescimento autossustentado, com impacto político — nomeadamente na promoção de democracias liberais (Niño-Zarazúa et al., 2022).

As teorias do subdesenvolvimento, incluindo o estruturalismo, o neo-marxismo, a teoria da dependência e a teoria dos sistemas mundiais (Payne & Phillips, 2010), sublinham o caráter assimétrico das relações internacionais. A ajuda externa, nesta visão, é frequentemente criticada como instrumento de dominação, que reforça a dependência económica dos países periféricos e bloqueia estratégias autónomas de desenvolvimento, como a substituição de importações.

Por oposição, o neoliberalismo, enraizado nos princípios da economia neoclássica, valoriza a estabilidade macroeconómica, a liberdade de mercado e a contenção do Estado. A ajuda deve apoiar reformas estruturais e o reforço da competitividade, frequentemente associadas aos programas de ajustamento promovidos por instituições como o FMI e o Banco Mundial. Thorbecke (2000) observa que, neste contexto, a ajuda serviu sobretudo para estabilizar o sistema financeiro global e facilitar o reembolso da dívida externa.

As abordagens neo-estatistas retomam o papel ativo do Estado, sobretudo na promoção da industrialização pesada. A ajuda é canalizada para setores estratégicos, como energia, transportes e finanças, sob coordenação de agências estatais que definem prioridades industriais e políticas de crédito dirigidas.

Com a viragem para o desenvolvimento humano (Sen, 1981; Haq, 1996), a ênfase desloca-se para o bem-estar e as capacidades das pessoas. A ajuda deve garantir o acesso a bens essenciais — educação, saúde, saneamento, transportes públicos — e promover a participação cidadã. Esta mudança de enfoque tornou-se particularmente visível após os fracassos dos programas de ajustamento, dando lugar a estratégias centradas na redução da pobreza e no reforço dos serviços sociais.

O conceito de desenvolvimento sustentável trouxe uma nova dimensão intergeracional ao debate, salientando a necessidade de conciliar crescimento económico, coesão social e preservação ambiental. A ajuda, nesta ótica, apoia projetos verdes, energias renováveis e infraestruturas socialmente inclusivas.

O chamado pós-Consenso de Washington (Stiglitz, 2001) enfatiza a boa governação, a transparência, a participação e o reforço das capacidades institucionais. A ajuda é orientada para a cooperação técnica e a melhoria da gestão pública, incluindo o alargamento da base fiscal e a eficácia na cobrança de receitas. O apoio orçamental e o alívio da dívida continuam a ser instrumentos relevantes, mas sujeitos a condicionalidades rigorosas.

Torna-se essencial ultrapassar tanto a lógica da dependência como a da imposição, reconhecendo que o desenvolvimento sustentável exige alianças solidárias, baseadas na confiança, na transparência e no respeito pela diversidade de trajetórias e modelos.

Autores como Sachs (2005) defenderam uma abordagem holística, baseada em diagnósticos personalizados e estratégias de investimento diversificadas, que permitam romper o ciclo da pobreza. Propõe uma divisão colaborativa de responsabilidades entre o setor público e privado e a canalização da ajuda para famílias, infraestruturas públicas e pequenos negócios. No entanto, críticos como Easterly (2006) alertam para os riscos de visões excessivamente ambiciosas e centralizadoras, apelando antes a reformas graduais e iniciativas sustentadas ao nível local.

As teorias pós-desenvolvimento (Escobar, 1995) questionam a própria noção de desenvolvimento enquanto imposição de modelos ocidentais. A ajuda deve, nesta visão, valorizar as práticas culturais locais, os modos de vida tradicionais e a soberania comunitária — recusando as lógicas de extração, uniformização e dominação.

Por fim, as abordagens do desenvolvimento global (Gereffi, 1996; McMichael, 2000; Robinson, 2002) interpretam a desigualdade como um fenómeno transnacional, moldado pelas cadeias globais de produção. A ajuda deve apoiar a integração das economias periféricas nas redes internacionais de comércio e comunicação, com o objetivo de reforçar a sua posição nas cadeias de valor e mitigar a sua vulnerabilidade externa.

Conclusão

A análise das diferentes abordagens teóricas ao desenvolvimento permite compreender como a ajuda externa tem sido moldada por paradigmas ideológicos, contextos históricos e prioridades em constante mutação. De instrumento de arranque económico a mecanismo de dominação ou ferramenta de promoção da governação, o papel da ajuda internacional nunca foi neutro nem consensual. Cada perspetiva oferece contributos relevantes — e limitações evidentes — sobre os caminhos possíveis para transformar realidades socioeconómicas marcadas pela desigualdade e pela exclusão.

Mais do que rejeitar ou enaltecer a ajuda externa de forma absoluta, o debate atual exige uma reflexão crítica e informada sobre as suas condições de eficácia, legitimidade e alinhamento com as necessidades e aspirações dos países beneficiários. Torna-se essencial ultrapassar tanto a lógica da dependência como a da imposição, reconhecendo que o desenvolvimento sustentável exige alianças solidárias, baseadas na confiança, na transparência e no respeito pela diversidade de trajetórias e modelos.

No futuro da cooperação internacional, o verdadeiro desafio talvez não resida apenas em quanto ou como se concede ajuda, mas sobretudo em para quê e com quem se constroem as estratégias de desenvolvimento. A redefinição do papel da ajuda deverá passar, cada vez mais, por uma visão partilhada e transformadora, ancorada na equidade global e na corresponsabilidade entre Norte e Sul.

Referências Bibliográficas

Bird, G. (1985). World Finance and Adjustment: An Agenda for Reform. Springer.

Chenery, H. B., and Strout, A. M. (1966). Foreign Assistance and Economic Development. The American Economic Review, 56(4), 679–733.

Degnbol‐Martinussen, J., and Engberg‐Pedersen, P. (2005). Aid: Understanding International Development Cooperation. London: Zed Books.

Easterly, W. (2003). Can Foreign Aid Buy Growth? Journal of Economic Perspectives, 17(3), 23–48.

Easterly, W. (2006). The Big Push Déjà Vu. Journal of Economic Literature, 44, 1.

Escobar, A. (1995). Encountering Development: The Making and Unmaking of the Third World . Princeton University Press.

Gereffi, G. (1996). Global Commodity Chains: New Forms of Coordination and Control Among Nations and Firms in International Industries. Competition and Change, 1, 4.

Ghatak, S. (2010). Introduction to development economics.

Haq, M. u. (1996). Reflections on Human Development. Oxford University Press.

List, F. (1991) [1885] The National System of Political Economy. New York: Augustus M. Kelley.

McMichael, P. (2000). Development and Social Change: A Global Perspective, second edition. Thousand Oaks: Pine Forge Press.

Moreira, S. (2005). Evaluating the Impact of Foreign Aid on Economic Growth: a Cross-Country Study. Journal of Economic Development, 30(2). https://jed.cau.ac.kr/archives/30-2.html

Moreira, S. B. (2013). Sobre a Medição do Desenvolvimento? Indicadores Desagregados e Compósitos com uma Aplicação Empírica a Portugal. Escrytos.

Niño-Zarazúa, M., Horigoshi, A., Gisselquist, R.M. (2022) Aid’s impact on democracy. WIDER Working Paper 2022/15. Helsinki: UNU-WIDER. https://doi.org/10.35188/UNU-WIDER/2022/146-4

Payne, A., and Phillips, N. (2010). Development. Cambridge: Polity Press.

Riddell, R. C. (1987). Foreign Aid Reconsidered. Oxford: James Currey / Overseas Development Institute.

Robinson, W. (2002). Remapping Development in Light of Globalisation: From a Territorial to a Social Cartography. Third World Quarterly, 23, 6.

Rostow, W. W. (1960). The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto. Cambridge University Press.

Sachs, J. (2005). The End of Poverty. Penguin Books.

Sen, A. K. (1981). Poverty and Famines: An Essay on Entitlement and Deprivation. Oxford University Press.

Smith, A. (1976) [1776]. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, Glasgow edition, edited by R. H. Campbell and A. S. Skinner. Oxford: Clarendon Press.

Stiglitz, J. (2001). An Agenda for Development in the Twenty-First Century, in A. Giddens (ed.), The Global Third Way Debate. Cambridge: Polity, pp. 340–57.

Thorbecke, E. (2000). The evolution of the development doctrine and the role of foreign aid, 1950–2000. Em F. Tarp, Foreign Aid and Development – Lessons Learnt and Directions for the Future (pp. 12-35). London: Routledge.

Tian, J. (2024). Does Aid Induce Foreign Direct Investment: Updated Evidence from a Quasi-Experiment. The World Bank Economic Review, 2024; lhae030, https://doi.org/10.1093/wber/lhae030.