Lugares do informal, lugares em movimento

Por Raul Mendes Fernandes

Raul Mendes Fernandes

Nascido na Praia, Cabo Verde, em 1953. Socioantropólogo e investigador do INEP na Guiné-Bissau. Fez o DEA na Universidade de Paris VIII em 1986, doutorando-se no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal) em 2012, com enfoque nas histórias de vida e nas relações de género na pesca artesanal na costa guineense.

Atualmente, é Professor na Universidade Amílcar Cabral da Guiné-Bissau.

Na Guiné-Bissau, como em muitos outros países da costa ocidental africana, a atividade pesqueira ocupa um papel de grande relevo na segurança alimentar da sua população. Segundo os dados dos nutricionistas da FAO, cerca de 80% das proteínas consumidas no país provêm dos produtos do mar. Os pescadores intitulados artesanais e as mulheres revendedeiras de peixe designadas informais são os principais responsáveis por esta segurança. 

O informal/artesanal, este espaço de não-reconhecimento, de ‘sombra’, do ‘invisível’, essa “caixa negra” (Lourenço-Lindell, 2002) composta por uma multitude de atores, atividades, práticas e lógicas, não pode ser reduzida a uma só dimensão por não ser um ‘espaço disciplinar’, uma ‘economia’ ou um ‘sector’. Por conseguinte ele não pode ser considerado como um conjunto coerente de regras e instituições, uma ordem ou um sistema, nem tão-pouco um universo sem regras e instituições, onde vigora a força e o individualismo puro e duro. Os fenómenos do informal/artesanal emergem das tensões nas fronteiras de várias ordens hierárquicas, umas constituídas, outras em constituição ou mesmo em erosão, numa temporalidade que Achille Mbembe designa por “tempo vivido”, ou seja na sua “multiplicidade e simultaneidades, sua volatilidade e latências para além das categorias preguiçosas de permanente e mutante” (2000, p. 20). Na sua critica à razão indolente Sousa Santos propõe uma razao cosmopolita que se fundamenta em tres proposicões metodológicas: a sociologia das ausências, a sociologia das emergências e o trabalho de traducão (Santos, 2000). 

A observação dos lugares de encontro dos “artesãos do mar” como lugares em movimento no espaço e no tempo, as feiras, os portos e os barcos, em particular as pirogas, são vistos como atores da pesquisa. Eles são feitos pelos homens e as mulheres que lhes dão vida e, ao mesmo tempo, possibilitam e condicionam as suas vidas. Estes lugares são descritos como lugares de experiência humana percebidos diferentemente pelos seus sujeitos, em particular entre os homens e as mulheres. Estes lugares são também lugares com história e sem a sua re-memorização tornam-se certamente incompreensíveis. Abre-se deste modo portas para uma epistemologia do território (Reis, 2007) entendida como tensão entre mobilidades e territorializações. O território é entendido como território relacional. A condição relacional é a matriz quer “perante a ordem relacional que os forma, isto é, as interações que estruturam a sua ordem interna”, quer “perante a ordem relacional externa”. Esta é entendida como “interações que estruturam o mundo” não como um lado exterior dos territórios mas antes como um todo de que eles mesmos fazem parte enquanto “categorias próprias” (Reis, 2007, p. 244). 

Mercados e feiras

As feiras são os mercados ‘informais’. Elas são diversificadas e descentradas. Podem ser tanto, periféricas como centrais. O poder oficial, formal, procura localizá-las na periferia, mas a dinâmica dos seus movimentos leva-as a fazer das periferias centro, e dos centros periferia. Para além das feiras existem feiras itinerantes e temporárias, os lumos, que organizam o comércio sobretudo no mundo rural. Os mercados principais são o Mercado Central, na praça, e a Feira de Bandim. O primeiro perdeu, atualmente, o seu lugar central em proveito da segunda, mas continua ainda a ocupar o seu lugar simbólico.

Um estudo sobre o mercado de Bandim ( Aguilar, Monteiro & Duarte, 2001) mostra como toda a cidade de Bissau foi transformada por este mercado, em muitos aspetos num processo idêntico aos mercados Roque Santeiro em Luanda ou Sucupira na cidade da Praia. A feira de Bandim deixou de ser, nos anos quarenta, “beco de Bandim” para ser “feira da curva de Bandim”, devido à sua localização, no terminal dos carros que faziam transporte coletivo para o interior, e que mais não era que uma pequena feira onde se vendia pescado, frutas e legumes, carvão e lenha, por um reduzido número de bideiras. Nessa época reinava a feira da praça, o Mercado Central, que depois da indepêndencia se tornou “feira de cooperante”, frequentada por consumidores com maior poder de compra. 

 A partir dos anos oitenta, a feira de Bandim tornou-se no grande centro comercial de Bissau, frequentado diariamente, segundo o estudo referido, por 90 000 clientes. O Mercado Central entrou em declínio e, hoje, após o incêndio que em 2005 destruiu o seu edifício principal, funcionou em condições precárias, na rua, até a sua reconstrução recente. Bandim tornou-se hoje o polo de atração dos djilas, nome genérico para designar homens comerciantes, e bideiras, nome genérico para mulheres comerciantes. Alguns comerciantes são originários dos países vizinhos – Senegal, Gâmbia, Mauritânia e Guiné-Conacri. Na feira de Bandim se instalaram comerciantes para a venda das mercadorias mais diversas, desde alimentação, vestuário, calçado, eletrodomésticos, a peças sobresselentes de automóveis e materiais de construção. 

As casas dos bairros vizinhos à feira foram transformadas pela sua expansão. As habitações dos bairros contíguos ou partes delas passaram a ser alugadas como armazéns. O dono da casa, por vezes, um assalariado da função pública ou de alguma pequena empresa, confrontado com baixos salários, complementa os rendimentos com a renda de uma parte da casa. Os bairros vizinhos à feira de Bandim acabaram por ficar incorporados e transformados por ela. Um dos casos é o bairro de Reno. Neste bairro situa-se uma grande baloba, um santuário da religião tradicional, muito respeitado no culto dos Pepel. Com a extensão da feira de Bandim, o bairro acabou por ficar situado no centro da feira. O mesmo movimento atingiu progressivamente outros bairros, sobretudo depois da construção da estrada que liga a cidade ao aeroporto. Nos anos noventa o bairro de Reno sofreu um incêndio grave que queimou uma dezena de casas, deixando muitas famílias sem habitação. Estes incêndios eram frequentes devido aos curto-circuitos que as precárias instalações elétricas produziam. Segundo os residentes, o fogo propagou-se até parar junto à baloba. O valor espiritual do santuário aumentou junto dos habitantes do bairro. Este acidente e a valorização da baloba que lhe sucedeu possibilitaram a ação de um grupo de voluntários holandeses de uma ONG, a SNV, que intervinham no reordenamento urbano. Esta ONG estava à procura de uma oportunidade para desenvolver os seus programas que esbarravam constantemente com uma orientação dirigista do Estado e mesmo da Câmara de Bissau. Os acontecimentos referidos no bairro de Reno possibilitaram o estabelecimento de um acordo entre essa ONG e os seus habitantes para a reconstrução do bairro. Esse acordo foi estabelecido em torno da baloba. Os voluntários antes de dar início aos trabalhos do seu projecto fizeram oferendas às divindades na baloba segundo o culto pepel. Estas oferendas consistem no sacrifício de animais – vaca, porco, cabra, galinha – conforme as possibilidades económicas de quem as faz. Trata-se de um sacrifício e uma confraternização. Estas cerimónias podem assumir vários caracteres – adivinhatórias, propiciatórias, reparatórias de injustiça. Os voluntários souberam envolver todo o mundo nos trabalhos coletivos e realizaram uma experiência que infelizmente não teve seguimento na reconstrução de novos bairros. Os restantes bairros à volta de Bandim não tiveram a mesma história e o seu ordenamento não se faz de uma forma aceite e consensual. As condições sanitárias e de ordenamento dos bairros pioram com o aumento do número de comerciantes que operam no seu interior. Uma associação de feirantes tem-se preocupado com o saneamento, mas os seus escassos meios e a deficiente ação da Câmara só permitem dar a estes problemas respostas limitadas e pontuais. 

A expansão dos mercados nos últimos trinta anos deve-se à reconversão de uma grande maioria das famílias guineenses no ‘informal’. Esta expansão está relacionada com o grande incremento das economias ‘indígenas’, a urbanização acelerada e a crise do assalariamento produzida pelos Programas de Ajustamento Estrutural que levaram à pobreza milhares de famílias que procuraram refúgio nas oportunidades do ‘informal’.

Alguns mercados de peixe se especializaram num determinado tipo de pescado. O peixe de primeira (bica, corvina, bicuda) e o camarão vendem-se sobretudo no Mercado Central e no Porto de Pindjiguiti, frequentados por clientes com maior poder de compra. O peixe de segunda categoria (taínha, djafal, iaiboi, rabenta-conta) e o peixe fumado vendem-se nas periferias e através de bideiras ambulantes que se movimentam nas ruas da “praça”.Na feira de Caracol vende-se peixe fumado, sobretudo o bagre, que é fornecido pelas mulheres de Cacheu. Esta feira, conhecida antigamente pela venda do vinho de caju, tornou-se progressivamente subsidiária da feira de Bandim. A extensão desta progride ao longo das principais ruas que vão da Mãe d’Água, um dos depósitos abastecedores de água canalizada, ao aeroporto distante de cerca de oito quilómetros. A venda de vinho de caju foi deslocada para uma zona mais periférica devido à expansão da feira de Caracol que se tornou num grande centro de compra e venda de frutas, legumes, tubérculos, cereais e de peixe fumado. 

Entre a feira de Caracol e a Chapa de Bissau as bideiras, muitas delas balantas, vendem solebison, peixes juvenis, geralmente tilápia, pescados nas bolanhas e braços de rio pelas mulheres e em seguida fumados. Estes peixes, solebison, djafal, iaiboi, taínha, frescos ou fumados, destinam-se às famílias mais pobres. 

Muitos portos do litoral guineense são também mercados de peixe. Os pescadores chegam geralmente aos portos com o seu pescado, que vendem à bideira com quem tiverem um acordo prévio ou, quando tal não existe, vendem àquela que aceitar o preço desejado. Atualmente a concorrência é maior entre as bideiras devido ao aumento de novas gerações de mulheres com um perfil diferente das mais antigas, porque muitas delas fizeram estudos primários e secundários, outras são mesmo mulheres assalariadas que complementam os baixos salários com outras actividades de rendimento. Entre elas há também as que foram levadas ao desemprego pelas várias tentativas de reforma da função pública que pretendem responder à necessidade de expulsar o pessoal “pletórico”. Entre as bideiras encontram-se muitas mulheres descartadas do sistema escolar e do sistema parental por gravidez precoce. Muitos jovens chegam aos mercados urbanos provenientes das zonas rurais da Guiné-Bissau e dos países vizinhos seguindo um forte movimento de urbanização que fez aumentar onze vezes a população da cidade de Bissau em trinta e nove anos. Ela passou de 68 242 habitantes em 1970 para 365 097 habitantes em 2009. A superfície da cidade aumentou onze vezes em cinquenta e dois anos, entre 1952 e 2004 (Mendy, 2006, p. 218). A população da cidade de Bissau é estimada em 2025 pela Worldometer em  612 643 habitantes. 

Muitos mercados são designados pela posição do corpo da vendedeira e do cliente: Unhibunda (mostrar o traseiro), Nô Djúngutu (acocoremo-nos). A posição do corpo é um indicador do local para a escolha e compra dos produtos expostos pelo chão muitas vezes por cima de um pano, um saco ou um pedaço de papelão. Também as designações indicam a precaridade do local da feira: Bas di Pé di Mango (debaixo da mangueira) ou a falta de seguranca pela frequencia de roubos, Tursi Mon (torcer as mãos). 

As mulheres bideiras agem no espaço do mercado sem uma rutura com o espaço doméstico. Estes espaços são para elas espaços de vida no sentido pleno. Neles resolvem as questões da casa e do comércio. A casa vai para dentro do mercado. Pode-se observar muitas vezes as mães levarem para os mercados os seus filhos menores que ainda estão a ser amamentados. Os seus filhos ao deixar a escola passam para dar uma ajuda ou partilhar com a mãe as refeições que estão a ser preparadas no local por elas ou pela bideira amiga que vende alimentos. Os filhos maiores podem sempre passar para pedir o dinheiro para mais um caderno, um livro, medicamentos para ele ou algum irmão ou familiar doente.

Este espaço multidimensional do mercado é percebido de forma distinta pelas bideiras e pelos djilas, para quem esses espaços são sobretudo lugares de comércio, de trabalho, distintos da casa. Para os djilas há uma percepção do mercado como uma entidade mais autónoma.

Para as bideiras, ao contrário, é mais um espaço da vida onde a casa continua. O público e o privado não constituem uma dicotomia tão forte como sucede na percepção masculina quer dos djilas, quer dos pescadores, para quem a casa deve ficar afastado do seu trabalho. 

Quando se lhes pergunta sobre o que fazem, as mulheres nas feiras respondem: bida. Este termo polissémico pode ter várias interpretacões. O primeiro é a luta pela vida, a procura de meios para se sustentar a si e à família. Em segundo lugar significa exercer uma profissão no espaço público, a troca no mercado, sem rutura com os trabalhos domésticos.

Esse trabalho tem uma conotação ética positiva, ao contrário do que seria moralmente condenável. Bida é também um conjunto de soluções fora do modelo oficial do trabalho, o assalariamento. Esta adaptação às novas pressões exercidas pela colonialidade que põem em causa a própria sobrevivência familiar dá todo o sentido ao termo bida, constantemente referido pelas mulheres como sendo a designação da sua profissão. Bida é dar a volta à vida, é uma forma de bricolage com a vida, a procura de soluções pequenas, experimentais, suadas, que elas designam por kudji kudji para dizer recolher um pouco de tudo, de dinheiro, de sorte, de peixe, de esperteza, de oportunidade, por todo o lado. 

Atualmente, uma das graves crises da responsabilidade masculina nos centros urbanos resulta da incapacidade do homem, chefe de família ou da morança (família alargada), assalariado, em participar totalmente nas despesas do mafé (termo do criol que serve para designar a parte do alimento que se mistura com o prato principal, a bianda, feita de arroz, milho, fundo). Tradicionalmente esta despesa cabe aos homens.  Ela passou a ser, para desonra de muitos homens, assumida em grande parte pela mulher. A desvalorização do salário na sequência da aplicação das receitas neoliberais levaram a uma transformação profunda nas relações de poder entre os homens e as mulheres no fogão, a unidade doméstica constituída por todos aqueles que partilham as refeicões diárias.

A luta das mulheres pelos seus direitos é também um fator de mudança nas relações de poder, sobretudo no espaço público. A sua presença no ‘informal’ tem favorecido uma afirmação crescente das mulheres no espaço público. A sua voz torna-se cada dia mais ouvida e reconhecida. Elas contam muito pouco com o salário dos homens para viver e fazer viver os seus filhos. Como assinala Domingues (2000, p. 519) “as práticas das bideiras revelam a sua criatividade para ‘utilizar o que estiver à mão’ para, continuamente, renegociarem a suas posições nas hierarquias e assimetrias de poder existentes na sociedade, encontrando forma de evitar o conflito e elaborar soluções consensuais, assegurando sua mobilidade social, através da sua capacidade de se autogerirem e se auto-organizarem”. Esta autora põe o acento na organização associativista das bideiras em particular nas mandjuandadis e nas abotas.

Portos e barcos

Ao dizer água em vez de mar a linguagem popular transmite a ambiguidade do meio marinho do litoral na Guiné-Bissau, que não é nem mar nem rio. Os estuários dos rios prolongam-se entre canais, praias, mangais e pelas costas, ilhas e ilhéus que se estendem em frente ao continente numa grande amplitude. O sal do mar sobe até à antiga feitoria de Geba no rio do mesmo nome. A partir desse ponto de clivagem natural, a água torna-se doce, e na carta inscreve-se também, nesse ponto, uma mudança cultural. Aí se alojaram desde o séc. xv os primeiros cristãos, oriundos de vários países da Europa, marinheiros, comerciantes e missionários, à procura de escravos, produtos tropicais, expansão da fé e mais tarde de terras para agricultura de rendimento – cana de açúcar, batata doce, mancarra, mandioca e frutas, mangas, papaias e cola –, que necessitam de água doce. 

Ao dizer a água sobe, a água baixa, esperemos pela água, a água já nos deixou para trás, a linguagem popular procura afirmar a posição da maré mas também quer exprimir uma realidade ambiental, a não diferenciação entre o mar e o rio. Os portos, um lugar constitutivo das praças, cidades e vilas, foram outrora feitorias: Bissau, a capital actual, Geba, Bolama, Cacheu, antigas capitais, Farim, e as vilas do sul, Buba e Cacine. Os portos, além de neles atracarem barcos dos mercadores estrangeiros, também recebem canoas de peixe, transportam gente e são um mercado.

O porto parece ser assim um lugar fronteiriço, onde a maré encontra a terra, o autóctone abraça e/ou rivaliza com o alógeno, o tradicional se torna moderno e vice-versa. Nos portos se fazem e se desfazem ligações sociais. Neles o marinheiro (o grumete no seu sentido original), o pescador, a bideira e o cliente se entrecruzam como trabalhadores e feirantes à volta do mafé.

O porto de Bubaque

Bubaque é a vila principal da ilha do mesmo nome. Ela está a um quilómetro da aldeia bijagó mais próxima, Bijante. São, até hoje, dois mundos que se aparentam separados. Após a independência da Guiné-Bissau, em 1974, a praça de Bubaque tornou-se cada vez mais num mercado. A praça foi transformada. O que restava da fábrica da Krupp, instalada em 1910, – produzia óleo de palma para a fabricação do sabão de Marselha, muito procurado na época –, dos edifícios da Administração e da Pescarte, tornaram-se num grande espaço de trocas, num mercado.

O movimento comercial seguiu uma sequência cronológica: em primeiro lugar as bideiras de peixe, seguidas das de legumes, depois os pequenos bares, em seguida as lojas dos djilas. 

O mercado ficou instalado na fábrica, entre a fábrica e as duas ponte-cais, a antiga que ruiu e onde as bideiras instalaram as suas ‘arcas frigoríficas’ e a nova ponte que começou a ser construída nos anos noventa. As bideiras se instalaram debaixo de alpendres improvisados com chapas de zinco enferrujadas. Por debaixo dos toldos, peixe fresco e fumado, ostras frescas e secas, tomates, verduras, óleo de palma, malagueta, tudo colocado por cima de mesas precárias de madeira ao lado das quais se sentam as bideiras em bancos igualmente precários. Pelo chão correm ainda os carris do pequeno caminho de ferro da antiga fábrica que transportava os vasilhames em aço carregados de coconote de palma que iam para a fornalha. Elas montaram as suas mesas ao longo desses carris metálicos, como a querer respeitar alguma simetria. Ali dividiram-se os espaços, as bideiras de peixe – tainha, barbo, bicuda, bica, simpote, sinapa – logo à entrada da feira para quem entra do lado da nova ponte. Ao lado delas, sobre os restos da velha ponte, dezenas de arcas frigoríficas. Estas arcas avariadas foram recuperadas e preparadas com esferovite para poder receber gelo que as bideiras compram na câmara frigorífica da antiga Pescarte, hoje privatizada. As arcas têm muitas vezes escritos os nomes das proprietárias – Mana Puntcha, Fatumata, Mana Keta. Algumas instalaram mesmo um fecho a cadeado. Lá se conserva o peixe, dentro do gelo, coberto por sacos de sisal, para ser vendido nas mesas da feira ou ser enviado a Bissau na próxima canoa. 

Na ponte velha encostam-se as canoas dos pescadores e aí em cima dessa ponte ou do que dela resta, à espera de se desmoronar de vez no mar, se fazem transações de peixe entre as bideiras e os pescadores. No mercado, à frente das bideiras de peixe fresco sentam-se, do outro lado da rua, as mulheres bijagós de outras ilhas, que vendem coconote em canecas de meio litro, ostras frescas (sobretudo aos fins de semana) e secas, combê e óleo de palma em garrafas de vários tamanhos (recuperação das garrafas de vinho e cerveja). 

O porto de Pindjiguiti

O porto de Pindjiguiti faz parte do discurso nacionalista por ter sido nele perpetrado o massacre de cinquenta marinheiros que se opuseram a 3 de agosto de 1959 às precárias condições de trabalho impostas pelos colonizadores. Este lugar simbólico é também um espaço de vida. Nele circulam actualmente milhares de pescadores, bideiras, clientes que trocam diariamente valores, mercadorias, símbolos, sensações, afetos e emoções.

Uma genealogia do informal mostra-nos como as fronteiras se deslocaram, as muralhas caíram e outras foram recriadas como fronteiras físicas ou imaginárias. Essa deslocação é seguida por reposicionamentos de novos actores em diferentes escalas de poder.

As novas fronteiras são estabelecidas pelo dispositivo de regulação do novo Estado moderno que procura limitar sem grandes sucessos os espaços, controlar a circulação e recolher impostos de forma ‘informal’.  A transformação dessas fronteiras em espaços de comunicação e de construção da vida na precariedade parece constituir para os sujeitos do informal um continuum entre as duas épocas, colonial e pós-colonial, apesar das aparentes diferenças.

A canoa com muita frequência, o barco de carreira com menor frequência, são os lugares itinerantes dos percursos entre o porto de Pindjiguiti e as ilhas. Neste movimento entre ilhas e Bissau se destacaram vários barcos, entre os quais Ana Mafalda, na época colonial, e Herman Cono, Amor, Unal, Canhabaque, Sambuia, Expresso das Ilhas, após a independência. Um dos barcos que permitiu maior liberdade para as mulheres bideiras e foi um lugar privilegiado de construção da identidade das bideiras foi o barco Sambuia. Este barco navegou desde 1989 a 1997. No seguimento da decadência da Pescarte e a ausência de ligação marítima devido ao desgaste e inutilização dos antigos barcos, o Estado pôs o barco Sambuia a fazer a ligação marítima entre Bissau e Bubaque. Esse barco desempenhou um papel estratégico na consolidação do grupo das bideiras. O ambiente criado neste barco proporcionou semanalmente, durante cerca de dez anos, nas viagens de ida e volta cerca de oito horas de convívios, trocas, entre as primeiras gerações de bideiras e as mais jovens. Criaram-se novas sociabilidades, trocas simbólicas, ligações que acabaram por consolidar a sua organização e proporcionar a criação de uma associação de entreajuda e convívio, chamada “A’ djagassi”, termo que significa “somos uma mistura”, para se referir às múltiplas pertenças étnicas dos seus membros.

As viagens eram momentos de trabalho muito duro, mas de festa e convívio intenso que marcaram de uma forma decisiva as formas de organização dessas mulheres enquanto grupo consciente de si. O barco Sambuia foi inutilizado pela má governação, mas as bideiras que se tinham constituído em associação aberta não deixaram de procurar outras soluções que encontraram na oferta em transporte para as ilhas disponibilizada sobretudo por proprietários de grandes pirogas motorizadas com forte capacidade de carga. Houve nesse processo um interregno produzido por uma guerra civil de onze meses em 1998-99 que dispersou o grupo e destruiu as suas poupanças, mas logo a seguir à guerra se procedeu a uma nova reorganização com o surgimento de uma nova geração de bideiras agindo individualmente ou organizadas em vários outros grupos e associações.

Considerações finais

O artigo parte da ideia que existe uma equivalência entre a dicotomia da diferença colonial, civilizado/indígena, e as dicotomias industrial/artesanal, formal/informal. Estas antinomias e hierarquias são produzidas pela colonialidade do poder (Quijano, 2000, 2009). As realidades recobertas por estas duas categorias, informal e artesanal, não podem ser apreendidas de forma disciplinar ou sectorial na medida em que as subjetividades e experiências dos sujeitos sociais a elas associados transbordam os limites e as fronteiras impostas pelas lógicas de produção da não-existência inerentes à colonialidade do saber (Quijano, 2000, 2009). As identidades diferenciadas desses sujeitos sociais são, ao mesmo tempo, respostas às diferentes formas de subordinação e expressões de um novo cosmopolitismo, o ‘cosmopolitismo no quotidiano’, construídas de forma transgressiva, multiforme e plural. A subordinação dos pescadores e das revendedeiras de peixe, a desvalorização dos seus conhecimentos, estão interligadas com uma política de venda de licenças, de transformação da natureza em recurso, do mar em recursos haliêuticos. O prosseguimento desta política poderá pôr em risco a sobrevivência destes sujeitos sociais e a sustentabilidade do ambiente onde agem e vivem. 

Referências

Aguilar Renato, Monteiro Huco, Duarte Aquino, (Coord.), Bandim, subsídios para uma política de apoio ao pequeno negócio, 2001, Bissau, Lala Kema, INEP.

Domingues, Maria Manuela Abreu Borges, (2000), “Estratégias femininas entre as bideiras de Bissau”, Tese de Doutoramento, Universidade Nova de Lisboa.

Lourenço-Lindell, Ilda, Walking the Tigh Rope, (2002), Department of Human Geography, Stockolm University.

Quijano, Aníbal, Colonialidade de poder, Eurocentrismo e América Latina, (2000), in Eduardo Lander (org), Colonialidade del saber, Eurocentrismo y Ciencias Sociales, Buenos Aires, CLACSO-UNESCO, pp. 201-246.

Quijano, Aníbal, (2009), « Colonialidade do Poder e Classificação Social », in Meneses, Maria Paula e Santos, Boaventura Sousa, (2009, orgs.), Epistemologias do Sul, Coimbra, CES/almedina, 73-117.

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Mbembe, Achille (2000), De la Postcolonie, essai sur l´imagination politique dans l´Afrique contemporaine, Paris, Karthala.

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