Mulher, essa cadeira é maior do que tu!

Por Paula Borges

Paula Borges

Quase 30 anos no jornalismo. Mãe de 2 filhas que – deseja - sempre “carreguem amor na sua coragem”. Vive para ouvir histórias. E para contá-las. Palavras e silêncios, desilusões, sonhos, esperanças. A RDP África é paixão maior. Recebeu, entre outros, o Prémio Gazeta Rádio 2023, por «Moçambique: Na arte de resistir», em conjunto com Orfeu de Sá Lisboa e Paulo Cavaco.

Carla Semedo enche as palavras de determinação e esperança realista. Cabelo cuidadosamente entrançado, filha orgulhosa de cabo-verdianos de Santiago, é Vereadora da Câmara Municipal de Cascais. Confessa que ficou perplexa quando lhe disseram “és a primeira mulher negra com pelouros numa autarquia”. É inevitável questionar-se, como “é que ainda não há mais representatividade em lugares de decisão em Portugal?”.

 

No gabinete dos Paços do Concelho, a poucos metros da baía da emblemática vila, partilha como as pessoas mais velhas da comunidade africana – os tios e tias – ficam felizes com o seu percurso. “Isto não é sobre ti”, pensou logo que chegou. “Não estou aqui sozinha, venho com os meus ancestrais, a história de vida dos meus pais, do meu irmão, as minhas filhas”.

 

Licenciada em Psicopedagogia Curativa, Carla Semedo é responsável pela Saúde, Solidariedade Social, Direitos e Inovação Social. Foi eleita em Outubro 2021 depois de ter sido convidada para integrar o Gabinete da Presidência da Câmara, como adjunta do Presidente, para implementação e dinamização do projeto Vida Cascais, uma rede inovadora e pioneira. O objectivo é facilitar o usufruto de direitos sociais, mediante o acesso a um Serviço Local de Saúde e de Solidariedade Social num esforço conjunto entre o estado central, o estado local, parceiros sociais e sociedade civil, com vista a uma maior equidade e coesão social.

 

O convite de Carlos Carreiras surpreendeu-a, mas aceitou. Carregava a experiência de mais de 20 anos de trabalho com diversas associações e instituições cívicas e do setor social como gestora, dirigente ou simplesmente como voluntária. Carla Semedo esteve na Casa Sol, que acolhia crianças seropositivas, num momento de enormes desafios no campo do VIH/SIDA e depois na Casa da Criança de Tires, onde vivem filhos de reclusas. Foi trabalho emocionalmente duro que lhe deu bases para este serviço público de proximidade. Abrangente. “Encontramos as pessoas na rua, somos avaliados diariamente pelas políticas, decorre da auscultação, conseguimos perceber o impacto nas condições de vida”.

Tem consciência de ser um privilégio este lugar de liderança num município com recursos, mas com desigualdades, que é mais do que praias, casas bonitas e glamour. “Há várias realidades de Cascais e a vereadora é de todas”, realça esta mulher de resposta pronta, riso sonoro, que tem aprendido a temperar sem perder a identidade. É cidadã de um país onde, reconhece, há racismo estrutural. Sentiu-o ao longo de toda a vida. Não pode fechar as portas a quem, com percurso idêntico, aqui chegará. Nunca validar o preconceito sobre o lugar de onde vem. “A primeira imagem é de uma mulher negra de tranças, não da competência (…). O que foi definido como estratégia é isso que quero deixar como semente”.

 

Revela como é bom trabalhar com Carlos Carreiras que desafia a “pensar fora da caixa”. “Costuma dizer que Cascais são 97 km2 de laboratório de inovação social”. Investe-se nos mais novos, sobretudo das zonas mais desfavorecidas, para que saibam que os “horizontes não estão limitados ao bairro”. Que a sua voz é ouvida e que há outras ferramentas de manifesto e audição. “Trabalhamos nos caminhos possíveis para que possam sonhar”.

 

Neusa Sousa é comunicadora, repórter do programa Bem-Vindos da RTP-África. Chegou de S. Tomé e Príncipe com dez anos. É também negra, filha de uma mãe solo, como designa as mulheres que, com ou sem parceiro, assumem a responsabilidade da família. Deste grupo faz parte a sua mãe e, ironicamente, ela própria. Foi essa a motivação para – grávida de 8 meses – “enfrentar o medo de reproduzir a realidade” que a rodeava. Já tinha criado um blogue na faculdade, mas atirou-se para o Chá de Beleza Afro, hoje transformado numa plataforma que dá visibilidade e potencia o empreendedorismo de mulheres negras. E concorda com a vereadora Carla. Aqueles que vencem a cadeia do desprivilégio não são melhores do que os outros. “Não sou especial”, afirma. “Tive uma mãe atenta que dizia ‘filha, estuda!’, tive os professores certos. Fez – seguindo o rumo tantas vezes indicado aos alunos afrodescendentes – um curso técnico-profissional de gestão de turismo. Destacou-se e alguém acreditou e fê-la acreditar. “Fui a primeira da minha família a ir para a Faculdade”. Sinaliza, no entanto, a grave crise na educação. “A meritocracia é uma falácia. Quem tem dinheiro tem mais facilidade”, defende Neusa que se considera “uma líder social, empática”, com confiança no impacto das políticas públicas.

 

Sónia Oliveira não teoriza sobre aquilo que lhe marca a vida desde a adolescência: uma espécie de liderança informal, própria de quem se atira ao trabalho em prol do coletivo. Pertence, desde o início, ao Grupo Comunitário do Bairro da Horta Nova, criado há 30 anos por impulso do sócioeconomista Rogério Roque Amaro, na freguesia lisboeta de Carnide. “Eu sou a pessoa que sou graças a este grupo”. Diz que “o bairro” (onde vive desde o nascimento) sempre resolveu problemas na luta. Foi assim quando passaram dos pré-fabricados para os apartamentos; para garantir que o autocarro não passava ao longe; com a escola; com as hortas que conseguiram legalizar, num trabalho conjunto com a presidente da Junta de Freguesia, Maria Vilar. Sónia lembra-se bem do primeiro combate cívico. Ainda na primeira fase do bairro – em estruturas provisórias lindas no olhar de menina – Sónia juntou-se aos miúdos-família com quem jogava ao elástico, às escondidas. Inspirados por um filme, quiseram limpar o bairro. Ruas, paredes, tudo! À noite engendraram o plano. Iam fazer o mesmo. “No dia a seguir, vinte e poucos miúdos, invadimos a Junta e dissemos que queríamos criar uma associação. Sentaram-nos numa mesa gigantesca, com a assistente social, a Isabel Vieira, e perguntaram o que pretendíamos”. Ajudaram-nos. Este envolvimento “ensinou-me a não baixar os braços, a ser uma pessoa melhor, a olhar para o lado”, afirma Sónia que já aponta os próximos objectivos: melhorar a higiene urbana e resolver os problemas das obras no bairro. A próxima reunião será, como sempre, na última quarta-feira do mês.