A poeta e historiadora Ana Paula Tavares (ULLisboa) e a investigadora do CODESRIA (Senegal), Patrícia Godinho, reflectem sobre a relação das mulheres com os desafios que lhe são colocados quando escolhem assumir posições de liderança e sobre os impedimentos que ainda existem para um acesso igualitário ao poder nas suas diferentes formas. A conversa atravessa temas como a importância do legado da participação feminina nas lutas de libertação e o diálogo entre gerações, a transmissão de saberes e a relação entre contextos urbanos e rurais.
Ana Paula Tavares (APT): Eu acho que as mulheres continuam completamente arredadas de todos os circuitos do poder, do exercício desse mesmo poder, embora por vezes as aparências sejam diferentes. Se nós olharmos para a Constituição angolana, apesar dela hoje já não ser a mesma Constituição que realmente fundou o país em 1975 (passaram 50 anos, a Constituição tem muitas adendas), realmente parecia que os direitos das mulheres estariam salvaguardados. Um certo direito à igualdade parecia estar lá inscrito. Mas começa logo por aí, as palavras são desafiadoras – direito à igualdade – quer dizer que elas ainda têm um grande caminho para conseguirem, não é uma coisa conseguida, uma coisa atribuída. Isso leva-me a pensar que ainda é muito longo o trabalho, as tarefas de todas estas mulheres, apesar de eu pensar que aquele país sem mulheres não podia existir. São elas que garantem a existência daquele país no quotidiano, há 50 anos, tal como nos nossos dias! É verdade que há 50 anos nós tínhamos o país praticamente em guerra, neste momento há uma situação de paz, isto é, os exércitos formais, teoricamente, depuseram as armas, mas hoje, como antes, são elas que realmente garantem toda a produtividade do país, toda a sobrevivência daquele país. Cada dia assenta no trabalho das mulheres. São elas que continuam a organizar o ciclo da vida, são elas que continuam a desencantar a água, esteja ela onde estiver, e, ao mesmo tempo que isto acontece, são elas que continuam muito longe, por exemplo, das carreiras universitárias. Tivemos uma ministra angolana mulher, ministra dos petróleos, o sector fundamental da economia angolana, com as infelicidades todas que nós sabemos que o petróleo determina, o sector dos petróleos foi durante um tempo governado por uma mulher. Eu sei que ela não tinha dentro desse Ministério dos Petróleos um poder real e efectivo e o mundo dos petróleos fica muito para lá das fronteiras da nação, como sabemos… houve projectos, ideias e formas de conduzir os resultados do petróleo que não saíam propriamente da cabeça dela. Acho que há um longo caminho ainda a percorrer. Se nós pensarmos, e eu sou historiadora e tenho a obrigação de pensar como historiadora, o que eram as mulheres no fim do tempo colonial, na data da independência, é evidente que já houve um caminho percorrido. À data da independência, Angola tinha 95% de analfabetos homens e 97,7% de analfabetas mulheres. Portanto, as mulheres estavam completamente fora do sistema de ensino, do sistema escolar. É evidente que os números hoje são outros, mas são números que não correspondem ao exercício do poder que realmente essas mulheres poderiam já ter nas mãos, infelizmente.
Patrícia Godinho (PG): Gostaria antes de mais de vos dizer que coincidentemente hoje, dia 30 de janeiro, é o dia da mulher guineense. Portanto, é o dia em que a Titina Silá, a Ernestina Silá, a antiga competente da liberdade da pátria, morreu. Em 1973, ela tinha ido assistir às exéquias de Amílcar Cabral e desapareceu no rio Farim e ela merece o meu reconhecimento e o meu respeito por tudo o que essas mulheres fizeram. Eu penso que é interessante fazer algumas pontes entre os nossos países por exemplo entre a Guiné-Bissau e Angola neste caso mais específico, mas eu atreveria a dizer também em termos dos PALOP, de uma forma mais geral. Se considerarmos as terras colonizadas onde houve lutas armadas, Guiné, Angola e Moçambique, é interessante ver como esta relação entre as mulheres e o poder não é só política – e a Ana Paula deixou isto aqui subjacente nas palavras dela. O poder não se resume apenas ao poder político. Temos que considerar que os nossos países são fruto de uma evolução histórica que antecede e é muito as relações coloniais, somos fruto de comunidades, de estados pré-coloniais, de reinos, etc., de formações políticas que antecedem muito o colonialismo. Esta questão, eu acho, deve ser posta também para entendermos que a relação entre as mulheres e a política nas nossas terras e na Guiné-Bissau de uma forma mais concreta, tem que ser lida numa perspectiva de história e de mudança. Eu penso que essa relação entre a mulher e o poder foi sempre muito complexa, porque nós passamos com as nossas independências, de uma condição de não cidadãos, ou então de cidadãos de segunda classe, no caso dos assimilados, a uma condição de cidadãos de plenos direitos. Ora, neste interregno, nesta fase de transição nós tivemos lutas armadas, que duraram uma década e um pouco mais, houve de facto uma luta, uma revolução. Uma revolução que começou no sentido de uma luta para inverter a ordem estabelecida, a ordem colonial. E nesta luta as mulheres tiveram um papel extraordinariamente importante e que nem sempre foi registado historicamente da melhor forma. Não estou a dizer que não foi, estou a dizer que não foi registado da melhor forma. Eu penso que nos nossos trabalhos, procuramos trazer estes debates, estas reflexões. E eu acho que é extremamente importante, porque falar de poder, no caso da Guiné-Bissau, é começar por contar a história tal como ela foi, a partir dos seus protagonistas e das fontes primárias. E é por isso que eu considero a história uma disciplina extraordinária, porque nos permite resgatar essas narrativas que ainda estão subterrâneas e que não foram convenientemente narradas e nem tornadas públicas. As mulheres na Guiné, tal como em Angola e em Cabo Verde, enfim, em todos os nossos países, tiveram uma participação activa. Além da mulher ser em algumas dimensões coadjuvante, por exemplo, a nível da justiça local, das questões económicas. Eu penso que muitas vezes se esquece o papel primordial que a mulher teve em termos da mobilização política. Mas os nomes delas não aparecem, não conhecemos as biografias, não conhecemos os feitos delas, à excepção de uma minoria, como a Titina Silá, mesmo a biografia, por exemplo, da Silá ainda não está escrita. A única biografia entre essas mulheres, foi escrita por Odete Semedo, que escreveu sobre a Carmen Pereira. Eu já realizei, mas que permanece ainda a nível, digamos, parcial, – é sobre a Teodora Inácia Gomes. Ela é também uma das nossas antigas combatentes, extremamente interessante, sobretudo do ponto de vista da luta política, precisamente, essa relação entre a mulher e o poder. Nós temos este desafio de trazer reflexões sistematizadas e debates sérios e com bases históricas sobre as experiências políticas das mulheres na Guiné, em Angola, em Moçambique, mas claro, também em Cabo Verde e em Santo Tomé e Príncipe. Relativamente à Guiné-Bissau, nós tivemos uma luta de libertação extremamente interessante, rica do ponto de vista da experiência das mulheres, cujos avanços na época pósindependência acabamos por perder. Muitos dos ganhos perderamse, ou então permaneceram lá, no contexto da luta pela independência. A Ana Paula estava a focar sobre a questão da educação. Nós temos níveis extremamente baixos de escolarização, o que é interessante, seguindo precisamente o raciocínio de Ana Paula, espero estar certa, é que isso também não deve ser tomado como a única referência, porque muitas vezes os números estatísticos dão-nos uma indicação, mas não nos dão toda a dimensão da realidade, porque a formação, a educação formal, nem tudo nos diz. Há mulheres que muitas vezes na Guiné-Bissau não têm efectivamente uma educação formal, portanto não seguiram todas essas etapas que nós tivemos a sorte de seguir, mas que do ponto de vista político dão contribuições extremamente valiosas, seja na organização das suas comunidades, seja nos debates, nas próprias agendas das mulheres, dos direitos, das discriminações, do acesso à justiça. Há muitos aspectos e muitas dimensões onde as mulheres, ainda que não formadas do ponto de vista de educação formal, são politicamente poderosas. Estas relações entre a mulher e o poder precisa levar em conta estas complexidades, os contextos específicos, sobretudo essa mobilidade que a caracteriza. Temos mulheres hoje que transitam nesses dois contextos, o rural e o urbano, temos que ter isso em conta quando falamos da questão da relação entre a mulher e o poder. O poder é político, o poder é económico, o poder é social, o poder é cultural e eu acredito que nós temos uma grande responsabilidade enquanto estudiosas, cada uma na sua área e devemos estar cientes que também temos esse poder cultural de contribuir para uma transformação social. Temos o desafio da educação, mas também temos o desafio do diálogo entre gerações de mulheres. Nós não debatemos suficientemente a questão mulher, entre nós mulheres, dentro do grupo social mulher quero dizer. Nós conhecemos por vezes muito pouco sobre as nossas terras, dos outros países que nos dizem respeito, porque a nossa história, nós, como Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, não existiríamos se não tivesse acontecido aquela luta maravilhosa que houve lá atrás e que permitiu as lideranças dos nossos países e os nossos povos, os nossos antepassados, lutarem e dar-nos essas independências.
APT: Penso que nós, para conseguirmos ser nações, construir nações fortes, sólidas é bem haver mulheres que, não sendo mulheres com uma educação formal, têm um poder que lhes vem da experiência, da partilha, do seu papel nas comunidades, e eu sei que dentro da Guiné, e eu concordo contigo, que é uma pena que os nossos países, os países africanos onde se fala a língua portuguesa, entre outras línguas, não partilhem mais dessas experiências, porque eu acho que, por exemplo, tínhamos muito que aprender com essas mulheres que tu referiste, lições de sororidade. Portanto, todas aquelas comunidades que têm mulheres e que partilham saberes, que têm a ver com a saúde feminina, o crescimento, o parto, poderiam ser questões importantes partilhadas entre todos os países já houve um momento em que nos conhecíamos melhor, Angola conhecia melhor a Guiné, a Guiné conhecia melhor Angola, Angola conhecia melhor Moçambique, Moçambique conhecia melhor Angola. Já houve esses momentos. Não foi por acaso que os nossos mais antigos criaram a CONCP [Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas], que antecedeu a criação de movimentos em cada um dos locais e antecedeu a própria luta armada. Eles não estavam sozinhos, não é? Quando nós pensamos no Amílcar Cabral, no Viriato da Cruz, e nessas pessoas nós temos que pensar nas outras mulheres, que traduziam escritores importantes para o desenvolvimento do seu próprio pensamento, traduziam do inglês, por exemplo, para português. Estou-me a lembrar de Noémia de Sousa. Nós, muitas vezes, pensamos nela como a grande escritora e a grande poetisa, e eu também gosto muito dos poemas dela, mas esquecemos o trabalho de tradução sistemático que essa mulher fez a vida toda, foi ela que traduziu para a língua portuguesa Aimé Césaire, O discurso sobre o colonialismo que continua a ser tão importante hoje como era há 50 anos. E nós esquecemos o papel dessas mulheres, ou porque traduziam, ou porque datilografavam os textos que os homens produziam, esquecemos de uma Sara Maldoror e daquilo que ela fez para que o conhecimento de Mário Pinto de Andrade não se perdesse… Hoje podemos ter acesso às cartas, às reflexões, aos ensaios dele. Isto para citar uma ou duas, mas há muitas, muitas mais. Todo aquele silêncio que depois das nossas independências se fez sobre as mulheres… o tal homem novo que vinha da luta… mas não havia nenhuma palavra para as mulheres nessa altura, e isso permitiu injustiças, silenciamentos, e permitiu que não se soubesse esse trabalho que muitas mulheres fizeram ao longo do processo de luta de libertação, e tu destes alguns exemplos que são fundamentais. A mobilização das comunidades foi feita por elas, a comida dos guerrilheiros era não só feita por elas, como antes disso era plantada por elas, colhida por elas, eram elas que iam aos regatos mais perto ou mais longe em busca da água, elas que passavam armas. Temos exemplos de heroínas que foram mortas exactamente porque estavam nesses trânsitos de passar armas e informação de uns lugares para os outros. Felizmente alguma coisa se vai descobrindo. Por exemplo, só há muito pouco tempo é que se começou a falar que nos famosos campos de concentração que existiam nos nossos territórios, e Angola tem vários, vários campos de concentração onde os nacionalistas foram encerrados, mas junto com eles foram encerradas mulheres. Houve filhos e filhas que nasceram nessa situação de cárcere. Só há muito pouco tempo, por exemplo, uma historiadora, uma nossa colega, descobriu que só no campo de concentração de Missombo tinham estado 300 mulheres ao longo dos anos em que durou a resistência. Portanto, não é possível termos uma ideia do que foi realmente a resistência ao colonialismo, nas suas diferentes componentes, nos seus diferentes aspectos, na luta armada, na resistência activa, nas prisões sem considerar que a mulher esteve sempre lá e que é ela que sustentava as redes que depois permitem a continuação da luta. Não há uma ideia de história completa, a história nunca ficará completa enquanto esses nomes e essas mulheres não fizerem parte, não estiverem alinhados, não é? Junto com todos os outros que nós já conhecemos. Não é possível, nesta altura, continuarmos a esquecer e continuarmos a perpetuar os silenciamentos que foram repetidos ao longo de muitos anos, às vezes por preguiça, preguiça de consultar a documentação, preguiça de voltar às fontes. Outras vezes porque a história que é contada é demasiadamente fácil, não é? Foi apropriada pelas diferentes instâncias do poder que não quer ceder a essa visão masculina e patriarcal da história. Eu acho muito importante que tenhas falado nisso, Patrícia, e que a tua intervenção tenha falado em aspectos sem os quais não podemos nunca perceber a nossa história. Queria também dizer que essa grande maioria da população não tinha nenhuma consciência de que tinha direito, que era um ser humano, falaste nessa categoria de assimilado, era preciso que a pessoa se propusesse a essa condição de assimilado, e provasse que sabia ler e escrever, que tinha comportamentos europeus, morava numa casa com determinadas regras, comia sentado à mesa, etc… conheço o trabalho que foi feito para Angola, comparando as candidaturas que começaram a ser feitas normalmente, mas as mulheres não faziam essas candidaturas. Nem sei se no caso delas fazerem uma candidatura seria considerado pela política colonial. Portanto, como dizem os nossos mestres, como disse Fanon, como disse Cabral, etc., realmente o colonialismo foi um sistema opressor, mas foi especialmente opressor para as mulheres. Penso que há relações muito complexas entre estas mulheres que tiveram treino militar, que estiveram nas principais batalhas, que organizaram escolas, que organizaram tudo isto, há diferenças entre quem realmente participava nas reuniões dos comitês centrais, ou comitês diretores, ou como se chamavam, portanto, há uma diferença entre realmente a prática e a tomada de decisões que continua a ser profundamente masculina. Felizmente temos, no caso da Angola, uma pessoa, Deolinda Rodrigues, que deixou a sua visão sobre o assunto. E nós não podemos deixar de sofrer ao ler como ela chama os companheiros de machistas, não sei se é bem este o nome que ela usa, mas ela deixa claro que eles não querem mesmo partilhar o poder com as mulheres! Considero que o momento do início das diferentes lutas de libertação nos nossos diversos países, são momentos de ruptura, nasce uma consciência de si, o indivíduo começa a ter a consciência de que é também um indivíduo, e não apenas a ideia de que pertença a um grupo, uma massa imensa colonizada. O indivíduo adquire uma consciência de ser, de pertença identitária. Há uma diferença entre esse momento de assunção, em que a prioridade era a conquista da independência nacional, e os momentos seguintes em que a mulher vai adquirindo uma consciência feminina dos seus direitos enquanto mulher. O sistema continua a ser patriarcal e violento. E a mulher tem mais dificuldade em lutar por uma via directa de acesso ao poder. Há uma grelha complexa de conquistas que ela tem que fazer, mas há a questão da educação, da formação, da educação dos filhos, de assegurar o futuro dos filhos. Há uma série de obrigações que a mulher tem e que nós não vemos, e que a afastam do poder. Nos contextos rurais há muitas coisas que afastam as mulheres do exercício do poder, quer seja o poder judicial, quer seja o poder político, quer seja o poder económico. Muitas vezes quem trabalha a terra, quem semeia, quem colhe são as mulheres. Mas depois existem redes de redistribuição, redes de, digamos assim, reunião do dinheiro que elas fazem, que já saem das mãos delas e do controle dessas mesmas mulheres.
PG: O falhanço tem a ver com o facto de que as mulheres, embora estejam presentes, não decidem, a nível político. E isto tem que ver, quanto a mim, com o que nós aqui conversamos até agora, e com duas dimensões extremamente importantes. A primeira é a dimensão educativa. As mulheres são socializadas com a compreensão de que elas podem, devem, podem ficar em casa, enquanto que os rapazes podem estudar e obter diplomas a nível escolar. É uma questão que está entranhada nas nossas sociedades e na Guiné-Bissau isso é muito evidente, até hoje. Isto tem um impacto real a nível das desigualdades de género de que tanto se fala e é verdade porque as meninas muitas vezes são obrigadas pelas famílias, pelas comunidades a seguir um determinado tipo de percurso que as leva a abandonar progressivamente os estudos. Isto está evidente na nossa experiência na Guiné-Bissau, portanto, é real, os dados estatísticos do Instituto Nacional de Estatística falam. Existe a questão educativa, que também é cultural, porque está entranhado, acaba por fazer parte de um modo de estar, de uma cultura, e que também acaba por se transformar num tipo de cultura política. Por outro lado, associado a isto, está a própria participação directa das mulheres nas instituições políticas. Rapidamente, se nós virmos na Guiné-Bissau, a presença de mulheres a nível alto e nos lugares cimeiros da política, é muito baixa. E nos partidos políticos é igual, há muitas poucas mulheres nos lugares onde se tomam as decisões. Ainda que existam muitas mulheres, provavelmente, nas bases desses partidos. Mas quem acaba, tanto lá onde se discute e se decide, elas não estão presentes. O trabalho que eu fiz com a Teodora fala também sobre isso. Ela refere isso. E ela disse uma coisa, na altura, muito interessante. Ela disse “isso também é responsabilidade de nós as mulheres, porque enquanto os homens estão ali à procura de apoios e de participar, poucas mulheres tem conhecimento dos seus direitos em termos de leis e, portanto, deviam ser ajudadas a defender esses direitos”. Penso que a importância do esforço que é feito em termos políticos por mulheres que pertencem a associações, que pertencem a organizações, de carácter diferente, que fazem um trabalho extraordinário nesse sentido. E eu acho que são essas, a partir destas organizações, que a pressão virá, efectivamente, e abalará as instituições do poder. São elas que serão capazes de abalar os alicerces do poder instituído. Então, nesse caso, eu penso que a participação efectiva das mulheres, a nível das decisões, vai depender claramente da relação que elas têm com o poder, da capacidade que elas terão de consciencializar outras mulheres para seguir o mesmo caminho e da capacidade que terão em se constituírem enquanto um grupo social forte, capaz de enfrentar aquilo que é um paradigma, ou seja, o domínio dos homens sobre toda a sociedade. E inverter esta relação, portanto, curar este paradigma, significa empreender, um caminho que não é simples. Contar uma história nova não é simples. E é o que Ana Paula dizia: é muito mais fácil rever algumas coisas da história que já foi contada ou aceitar alguns outros aspectos dessa história do que destruir e reconstruir uma história do nada. Implica trazer novos conceitos, trazer novas formulações, novas compreensões. Eu acredito que o trabalho interdisciplinar aqui é extremamente importante e poderá ser muito valioso. Ou seja, nós somos historiadoras, mas precisamos de uma maneira essencial das colegas que trabalham com as literaturas, das colegas que trabalham com a sociologia, das colegas que estão no âmbito da antropologia, das colegas das economias e por aí vai, das geógrafas, etc. Mas eu tenho trabalhado muito com a literatura escrita por mulheres africanas a partir das mulheres africanas. E tenho descoberto muita coisa interessante. Esta relação também entre a história e a literatura é extremamente interessante, porque eu aprendo a entender o poder das mulheres de uma forma descomplexada, de uma forma que me permite imaginar a liberdade sem, como é que eu ia dizer, sem ter que brigar com o poder instituído, ou seja, a imaginação que a literatura me proporciona, permite-me pensar formas de relacionar até com outras mulheres, mas também até de repensar os conceitos e as noções das coisas, repensar o espaço e muito mais. Portanto, eu acho que este trabalho interdisciplinar pode nos ajudar bastante. E eu acredito numa coisa, eu acho que nós precisamos, Ana Paula, de ter cada vez mais exemplos positivos. É bom reconhecermos os problemas, com certeza. E reconhecermos que há mulheres que são vítimas, mas a narrativa que vitimiza excessivamente as mulheres não é boa. Ou seja, eu penso que temos muito mais a ganhar em vez de reconhecer apenas as fragilidades e os problemas, em abraçar os bons exemplos como referência para irmos mais além. Portanto, o nosso futuro não pode ser construído com base nas nossas desgraças. Nós temos que reconhecer o que tivemos e o que temos de desgraça. Claro que se não reconhecemos não podemos pensar em mudar. Mas precisamos resgatar exemplos positivos e interessantes que nos permitam sonhar e construir o futuro. Porque sem isso, torna-se difícil. E eu penso em Amílcar Cabral, porque ele tem sido um intelectual que muito me tem inspirado também neste meu trabalho. Juntamente com todas as mulheres com quem eu tenho trabalhado, as minhas interlocutoras. Nós temos que nos permitir sonhar o nosso futuro. E sonhar só é possível tendo uma visão da nossa realidade. E é daí que é importante nós conhecermos aquilo que a nossa terra, ou seja, a nossa realidade, as nossas culturas, as nossas línguas e por aí vai. Mas por outro lado, precisamos resgatar os elementos positivos dessa nossa cultura, trabalhar a partir desses elementos, temos que ousar conhecendo, estudando, compreendendo. Não podemos ousar sendo ligeiras. Estou plenamente convencida e isto só é possível com muito esforço, muito estudo e tanta humildade.
APT: Eu estou muito de acordo contigo, Patrícia, e acho que falaste aí numa série de questões que trazem para a actualidade aquilo que nós já analisámos em relação ao passado, quer ao passado mais longínquo, quer ao passado recente. Também eu acredito na sociedade civil e nas mulheres dentro da sociedade civil através das suas associações, como por exemplo em Angola o Ondjango Feminista, que é uma associação de mulheres jovens que trabalha para saber quais são as principais fragilidades, quais são os principais problemas da mulher. Portanto, a multiplicação desse tipo de associações parece-me um dado fundamental e sobretudo aquilo que eu aposto nas mulheres que educam. Se nós conseguirmos educar gerações, os nossos filhos, para não serem machistas, se nós conseguirmos passar a ideia de que a criança tem que ser atenta ao outro, tem que ser atenta à diferença, tem que ser atenta à mulher. Se nós conseguirmos passar essa ideia, isso sim será a descoberta de um poder que não tem limites. Acho que a Chimamanda [Ngozi Adichie] já disse isso e até escreveu um livrinho como educar uma criança feminista. Chimamanda à parte temos que pensar na Guiné e em Angola – porque muitas vezes nós estamos, e é pena, muito mais atentas aos fenómenos que se passam nas sociedades ditas ocidentais do que a ver os nossos próprios problemas e, sobretudo, a procurar conhecer o que é que no continente africano se passa em relação a todos esses problemas. Falta-nos isso. Outra vez, quando tu dizes fincar os pés no chão, os pés na terra, eu acho que sim, fincar os pés na nossa terra e também a nossa terra dentro do continente africano ao qual ela pertence. E muitas vezes também é verdade que as redes sociais, a comunicação social não ajuda. Acho que temos que ter muita consciência de que não é mais o tempo de ficarmos caladas, não é mais o tempo do silêncio. Há que romper esse mesmo silêncio, assumir uma voz e que só isso, e pertencer a organizações formais e não formais, que nos permitam realmente sonhar com o futuro.
PG: Eu também tive uma experiência muito importante em Itália, que moldou a minha formação. E eu gostaria de dizer que uma das questões que faz parte deste debate sobre as relações entre a mulher e o poder é a questão da diáspora africana. Passei vários anos em Itália, na Sardenha, que é uma terra onde tem muitos migrantes e muitos, infelizmente, ditos, ilegais, clandestinos. Eu tive uma experiência interessante precisamente a nível desta realidade africana, e não só e penso que nós, africanos, aqui no continente, precisamos começar a dar atenção, alguns países já o fazem, por exemplo, o Senegal, à diáspora. Mas nós, dos nossos países, eu entendo a Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé, também precisamos fazer isso, sobretudo no caso da Guiné-Bissau, que é a realidade que melhor conheço. Eu penso que a diáspora tem um papel importante, isto é já reconhecido, mas eu acredito que precisamos encontrar vias melhores para uma melhor comunicação e diálogo e participação política da diáspora nos nossos países, porque senão corremos o risco de perder muitas experiências interessantes e também de levar o nosso continente além fronteiras, em termos intelectuais. Eu não estou só a falar da diáspora, sempre que se pensa na diáspora, pensa-se na imigração por questões económicas, etc. Mas não, a diáspora em Itália, eu vi isso, colegas lá no norte, em Verona e outras regiões, com formações, identificar, ir buscar essas experiências e trazer, porque a unidade africana, a unidade dos nossos países precisa ser inclusiva, unidade tem que ser isso, nós não podemos pensar o país se não formos inclusivos. Então, eu gostaria de dizer que a experiência em Itália me ensinou muita coisa nesse sentido, a ponderar e a respeitar essa categoria tão importante que é a diáspora.


