Mário Cruz
O lado escondido da crise da habitação. Vítor, 65 anos, dorme em dois colchões sobrepostos no chão de um edifício empresarial devoluto, nos Olivais, em Lisboa. Vítor foi convidado a viver no local por outros residentes da fábrica quando o viram a dormir na rua depois de ter sido despejado pelo senhorio por incumprimento no pagamento das rendas. Em 2011, passados 7 meses de ter perdido o seu trabalho numa oficina de automóveis acabou por viver no chão de um pequeno beco. A sua pensão não lhe permite alugar uma casa em Lisboa. A ajuda de outras pessoas em condição semelhante à sua foi crucial para a sua sobrevivência. É um dos muito exemplos de quem sobrevive em locais abandonados na capital portuguesa.

 

O Humanismo como exigência do presente e chave do futuro

Victor Ângelo

No tempo presente, o uso da força e as atitudes extremistas estão a ganhar terreno na definição das relações internacionais e nas arenas políticas nacionais. Fazem, igualmente, os grandes títulos da comunicação social. Trata-se, em certa medida, de um regresso ao passado, quando os nacionalismos exacerbados representavam, na realidade, os interesses das elites, e as confrontações frequentes constituíam a base do relacionamento entre os Estados. E quando a generalidade dos cidadãos era vista como gente sem importância, sem direitos, à mercê dos poderosos. Ou então, como simples potenciais combatentes, carne para canhão, como diz a expressão mais conhecida, a quem caberia, mais tarde ou mais cedo, o dever de defender o que era dito como sendo a Pátria, participar na guerra com os Estados vizinhos, em caso de disputa entre os respectivos líderes, ou contribuir para as querelas de fronteiras ou para a expansão imperialista do seu país de origem.

Depois da Segunda Grande Guerra no século XX e da emancipação de muitos dos povos outrora colonizados, e com a afirmação da ONU e da firmação dos textos fundadores do novo direito internacional, conseguiu-se um enorme progresso em termos dos direitos humanos e dos diversos povos que constituem o xadrez internacional, da liberdade e da dignidade das pessoas. Agora, dramaticamente, os valores, princípios, convenções e protocolos que foram aprovados nas últimas oito décadas são cada vez mais ignorados e violados. Aquilo que se imaginava ser, de um modo geral, um período de paz sem fim, de liberdade, cooperação e prosperidade está a ser substituído por um clima de instabilidade crescente, de incertezas, de rivalidades e de indiferença por tudo o que não nos toca diretamente. Os interesses das elites e as alianças oportunistas e sem escrúpulos entre diversos países parecem estar, de novo, a ganhar a primazia. A cooperação entre os povos e a promoção da dignidade das pessoas, sobretudo as mais frágeis em termos económicos e sociais, estão a perder sentido, a deixar de contar nas preocupações internacionais. E a inovação tecnológica é desvirtuada cada vez mais para manipular as opiniões e explorar a natureza sem qualquer tipo de respeito pelos princípios nem da ética nem da sustentabilidade.

Ora, o individualismo, o egoísmo, o salve-se quem puder não devem fazer parte do nosso presente nem podem constituir as referências que definirão o quadro do futuro no nosso universo. Nesta era digital e de interdependência global, a única resposta possível aos imensos desafios que nos são comuns passa pela solidariedade, pelo respeito pelos equilíbrios e por intervenções multilaterais. Ou seja, por uma nova compreensão do que significa uma visão e uma atitude humanista.

Esse novo humanismo como forma de olhar o presente e o futuro deve ter como preocupações centrais algo mais do que a defesa da liberdade e do progresso humano. O foco no bem-estar humano, na dignidade e no valor intrínseco de cada um e de todos os indivíduos continua a ser o pilar fundamental de uma filosofia humanista. Mas agora é preciso ir mais longe e incluir no conceito o respeito pela vida de todos os seres vivos, com excepção dos que estão na origem das epidemias e que representam um risco sanitário real, a proteção da natureza e do cosmos, bem como a construção das condições necessárias para garantir um futuro que assegure a tranquilidade, a criatividade e o desenvolvimento das gerações futuras. O humanismo exige igualdade de oportunidades, reconhecimento dos direitos humanos de cada pessoa e um conjunto de princípios éticos que aceitem a diversidade humana, a cooperação entre os povos e a nossa responsabilidade e moderação na utilização dos recursos naturais em terra, no mar e no ar, e na gestão do espaço sideral. Pressupõe, igualmente, uma aplicação inteligente, regulada e justa da Inteligência Artificial. A IA requer uma reflexão aprofundada dos seus benefícios e também dos riscos do seu mau uso, ou da sua autonomia descontrolada. Pode permitir a expansão do progresso, que é essencial para o reforço da condição humana. Mas também pode ser um factor de agravamento das disparidades sociais e de desumanização.

Mais ainda, investir numa visão e numa atitude humanista deve servir de base ao crescimento das nossas capacidades analíticas, das faculdades de discernimento, que permitam distinguir o verdadeiro do ilusório, o importante do superficial. A educação deverá colocar o acento tónico no desenvolvimento da lucidez ética, crítica e construtiva.

Nada disto é fácil. É evidente que a ênfase é colocada, simultaneamente, na responsabilidade individual e nas respostas colectivas. Por isso, o humanismo é um conceito complexo, ao mesmo tempo individualista e partilhado. É a sobrevivência de todos, dos seres humanos e da natureza, que está em jogo. Em poucas palavras, é a ética antes do materialismo.

Esse é o caminho.

Se este quadro de pensamento não for respeitado, caminharemos de modo acelerado para a destruição de uma grande parte do nosso planeta e para um retrocesso civilizacional milenar.

As organizações internacionais têm um papel fundamental, que deve ser valorizado e protegido. Necessitam de ter acesso aos recursos e às vontades de todos, dos líderes em funções e dos cidadãos soberanos, para poderem responder aos problemas que, num mundo profundamente interconectado, são de todos. Por isso, é essencial defender o sistema multilateral e os mecanismos que servem de base de sustentação a uma ética universal. Sem valores aceites por todos não haveria solução e não faria infelizmente sentido falar de um futuro melhor. O ser humano é olhado, desde o Renascimento, há cerca de seis séculos, como o centro do universo, em substituição da Terra como ponto central da criação divina. Não podemos deixar que seja, nesta nova era, o centro da sua destruição. Nem deixar de colocar no centro do presente e do futuro o equilíbrio entre os seres humanos e o ambiente de que fazemos parte. Assim se define o humanismo.

 

 

Humanismo

Angeles Jurado

«Humanismo» é uma das minhas palavras favoritas.  

Vem de humano, daquilo que nos iguala e une, da nossa natureza comum, da nossa espécie. O humanismo é um pensamento que surge do amor pelo próximo e que se baseia na ideia de que todos os seres humanos têm o direito e a possibilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas.  

Para mim, humanismo implica que todas as existências são importantes, que todos merecemos respeito, que todos somos valiosos. Uma ideia que me parece fundamental em muitas das sociedades africanas tradicionais, que são, em muitos casos, humanistas. Muitos africanos compreendem que a medida de tudo está na pessoa e, além disso, entendem que somos pessoas porque fazemos parte de uma comunidade, de um todo. Eu sou porque tu és, proclama o Ubuntu. Por isso, o humanismo africano tende a ser comunitarista, para que nos refletimos uns nos outros e compreendemos a nossa humanidade no coletivo.  

Quero precisar que esta humanidade não se desvincula do resto da Natureza, nem a olha de cima. Fazemos parte do cosmos e do ambiente, utilizando as suas possibilidades com respeito e conhecimento. Não somos donos e senhores de recursos, o que parecem implicar textos sagrados, que podem ser interpretados como a confirmação de que existe uma colocação ao serviço do homem de tudo o que o rodeia.   

Parece-me que, assim como o homem é um microcosmo ambulante e falante, não se pode explicar a sua humanidade sem a comunidade nem a sua inserção no ambiente envolvente do território em que se ancora e que se transforma na sua casa. Somos seres complexos, com relações complexas entre nós e que navegamos em mundos extremamente complexos. Portanto, essa complexidade deve ser levada em consideração na cooperação: a individual, a comunitária e a que se entrelaça com as inter-relações com a Natureza, um conceito que abrange desde as minúsculas bactérias até as montanhas e as árvores mais altas, desde as formigas e os sapos mais pequenos até as enormes baleias azuis e, claro, todas as comunidades humanas. 

O humanismo é o guia perfeito para as nossas ações em cooperação: não pode funcionar sem o respeito por todas as vozes e, portanto, sem o diálogo e o consenso. Se não podemos ser atores nos nossos próprios processos de desenvolvimento e se as comunidades não exercem de protagonistas das suas próprias vidas, a mudança real não é possível. Se não aprendemos a abraçar a nossa interconexão, a aceitar a multiplicidade e a diversidade de conhecimentos, a exercer a miscigenação e a cooperar de forma horizontal, não podemos avançar para algo diferente.

 Aminata Traoré disse que os nossos destinos estão entrelaçados e que devemos seguir esse fio que nos une, não o quebrar. O humanismo coloca-nos ao mesmo nível, a remar juntos no convés do mesmo barco, com todos os seres grandes e pequenos que habitam o planeta e todas as possibilidades.