
Anita Wasik

Pensar, fazer e aprender melhor
Ana Luísa Silva
Em 2019, escrevi com o Luís Pais Bernardo para a Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD um texto sobre inovação inclusiva para o desenvolvimento sustentável, ao qual demos o título “Pensar, fazer e aprender melhor”[1]. Nele partíamos de duas constatações. A primeira prendia-se com a natureza dos problemas que a cooperação internacional para o desenvolvimento procura resolver: problemas complexos (problemas espinhosos, como na altura traduzimos para português o conceito de wicked problems). Problemas como a malnutrição ou a desigualdade de género não são simples de analisar nem podem ser resolvidos com a certeza de que a solução escolhida vai ter o resultado esperado. São complexos por terem múltiplas causas (muitas vezes interligadas) e por não terem uma solução única nem definitiva. Por exemplo, reduzir a malnutrição infantil numa comunidade rural de um país de baixo rendimento pode implicar intervir num conjunto de problemas diferentes e interdependentes: práticas agrícolas, sistemas de saúde, perspetivas sobre os papéis de género, educação e até transportes.
A segunda constatação, inspirada nas reflexões de Robert Chambers[2] sobre a sua longa carreira enquanto especialista em desenvolvimento rural e métodos participativos, lembrava-nos que, enquanto agentes ou sujeitos de cooperação, nunca somos externos à intervenção. Somos parte do processo, influenciamos e somos influenciados por ele. Por isso, a reflexividade — a capacidade de questionarmos criticamente o nosso papel e os nossos pressupostos — é fundamental na cooperação para o desenvolvimento.
Concluímos esse texto da seguinte forma:
“A inovação para o desenvolvimento sustentável deve ser um processo multidisciplinar, em que se combinam conhecimentos e aprendizagens várias. Deve ser inclusiva, partindo da experiência daqueles que estão mais próximos dos problemas e que os vivem no dia-a-dia. Quem promove a inovação para o desenvolvimento deve assegurar que há tempo e espaço para criar, mas também para testar, falhar, iterar, aprender e crescer. Só assim exercemos verdadeiramente a reflexividade e asseguramos a emancipação daqueles que servimos, rumo a um desenvolvimento mais justo, equitativo e sustentável.”
Seis anos depois, num contexto global ainda mais desafiante e em que a própria cooperação para o desenvolvimento é posta em causa, esse texto continua a ser, para mim, uma boa introdução à inovação na cooperação. Relembra-nos as limitações de uma visão de inovação limitada à tecnologia, numa altura em que a imaginação coletiva tende a equiparar inovação a empreendedorismo, digitalização e (claro!) inteligência artificial. Em torno ao lançamento da Agenda 2030, em 2015, multiplicavam-se as manifestações de tecno-otimismo em iniciativas de fomento de inovação muitas vezes centradas no digital e que promoviam o desenvolvimento de soluções como aplicações móveis para saúde, plataformas digitais de apoio aos agricultores ou sistemas remotos de monitorização de resultados. Embora úteis, estas soluções arriscam-se muitas vezes a ficar pela resolução de sintomas e não das causas profundas dos problemas, pelo que acabam por ter uma existência efémera. Para além disso, nem sempre consideram de forma adequada questões como a acessibilidade, a literacia digital ou a apropriação local.
Inovar não é em si algo automaticamente positivo, apesar de o entusiasmo coletivo em torno da ideia de inovação nos possa fazer querer que assim seja[3]. Pensar na inovação para além desta visão tecno-otimista é reconhecer, em primeiro lugar, que inovar nunca é um exercício neutro nem apolítico. Significa, muitas vezes, deslocar o centro da decisão, redistribuir poder e rever relações de dependência que marcaram historicamente a ajuda internacional. Esta perspetiva aproxima-nos de uma visão de inovação social próxima de transformação: inovar verdadeiramente passa a ser alterar estruturas e relações que sustentam exclusões e desigualdades. é imaginar outras formas de relação, de construção de conhecimento, de partilha de poder e de prática da solidariedade. É procurar formas mais justas, eficazes e humanas de responder a problemas persistentes; e é também reconhecer o que não está a funcionar, abrir espaço para o erro e valorizar a aprendizagem. Em vez de importar modelos, trata-se de criar soluções enraizadas nos contextos locais, com quem vive os problemas e, muitas vezes, já conhece os caminhos para os resolver.
E depois de pensarmos no porquê, como? Existem várias abordagens abertas à inovação e que dão prioridade à participação, flexibilidade e escuta. O design centrado nas pessoas (human-centered design) trabalha a partir da empatia, com foco na prototipagem. A gestão adaptativa permite ajustar estratégias de forma reativa, com base no que funciona. As metodologias participativas garantem o envolvimento ativo das comunidades. A teoria da mudança ajuda a alinhar ações com impactos desejados. E a prospetiva estratégica (strategic foresight) permite explorar e antecipar possíveis desenvolvimentos futuros, usando a inteligência coletiva para nos guiar em contextos de incerteza e complexidade.
O princípio comum é claro: inovar não é ter respostas certas, mas construir caminhos com quem tem sido deixado de fora das decisões. Trata-se de devolver voz, reforçar capacidades locais e reconhecer que a inovação mais transformadora é, muitas vezes, pouco visível — aquela que muda relações, lógicas e formas de pensar.
Naturalmente, esta perspetiva exige mudanças profundas na forma como a inovação é vista pelos vários atores de cooperação. As estruturas de financiamento, os modelos de prestação de contas e até os tempos da cooperação nem sempre permitem a flexibilidade necessária. Ainda assim, cada vez mais organizações, profissionais e comunidades abrem fendas nesse sistema, cientes de que num mundo em mudança, inovar é antes de mais transformar a forma de cooperar e praticar solidariedade.
Promover inovação na cooperação passa por criar espaços institucionais onde seja possível errar e aprender, testar e adaptar, reformular e tentar de novo. É passar de uma lógica de “projetos” para uma lógica de “processos” — onde a mudança é construída coletivamente, a partir de relações horizontais e de confiança mútua. No fundo, em contexto de incerteza e complexidade, é adotar como lema o título daquele texto de 2019: ‘pensar, fazer e aprender melhor’.
[1] Silva, A. L. & Bernardo, L. P. (2019). Pensar, fazer e aprender melhor: promover a inovação inclusiva para o desenvolvimento sustentável. Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD, n.º 19.
[2] Chambers, R., 2017. Can we know better?: reflections for development. Practical Action Publishing, Bourton on Dunsmore, Rugby, Warwickshire.
[3] O autor Benoît Godin fez um trabalho importante para mostrar a história do conceito de inovação e como a sua construção enquanto conceito marcadamente positivo é um fenómeno recente. Ver esta entrevista de Godin a Ulrich Ufer, em Março de 2018, à revista TATuP: https://doi.org/10.14512/tatup.27.1.60.
Bissau, cidade de Moransas
Fátima Proença
Há espaços que contam histórias, contêm testemunhos de um tempo, com as pessoas no seu centro. “Estar aqui, numa época e num local preciso”, sintetizava Nadine Gordimer, escritora sul-africana, testemunha de um tempo de apartheid, no seu discurso do Nobel.
Bissau é uma cidade de espaços que contam histórias, de tempos sobrepostos e de sonhos colectivos.
Moransa di Kultura é uma desses espaços – Moransa como espaço / casa / pessoas / relações / ambiente, sonhando e concretizando colectivamente, neste caso a valorização da cultura, num tempo preciso.
Começou por ser, a seguir à Independência, um espaço de valorização de recursos naturais do país, ali sendo criada uma empresa pública que iria tratar, transformar, acrescentar valor às muitas variedades de madeira das florestas do sul, um tesouro até aí explorado de forma privada, sobretudo por europeus, e sem regras de protecção.
Nesse espaço – em tempo de colónia o Almoxarifado da Fazenda – nasceu em 1976 e funcionou durante cerca de 20 anos a SOCOTRAM – Sociedade de Comercialização e Tratamento de Madeiras. Das mãos dos cerca de 500 trabalhadores e da maquinaria fornecida pela agência sueca de cooperação internacional, saíam pranchas de bissilon, chachos de mancone, parquet de pau de sangue. E, em projecto, a produção de mobiliário de qualidade, para exportação.
20 anos depois do decreto de extinção da empresa, o espaço renasce. Em maio de 2025 renasce como Moransa di Kultura – novamente um tempo e um lugar de sonhar e concretizar a valorização, agora de outros recursos. Maio foi todo ele um tempo de prática incessante da cultura, de partilha e de intercâmbio nacional e internacional, desta vez da iniciativa não de um estado, que se desacreditou, mas de pessoas, que apostam fazer da criatividade e da inovação um exercício de liberdade, a procura de viver a cultura como espaço de liberdade.
Estar aqui, numa época e num local preciso.
Procurando sair dos muros, o espaço da Moransa foi pensado e concretizado como algo aberto, movimentando-se por interstícios até ao coração dos bairros das periferias da cidade. Sim, porque neste tempo e neste lugar há também uma mulher a ser violentada em sua casa, uma menina a ser levada para o fanado, um jovem está a tentar curar as feridas infligidas em instalações do estado, em completa impunidade. A Fundação MOAC BISS sabe que é também este o tempo, este o lugar.
Também por isso ou talvez por isso apostou e concretizou a 1ª Bienal de Arte e Cultura neste tempo e neste espaço, com estas pessoas, sonhando e concretizando, com muitos outros.
Cabral estará seguramente orgulhoso.
Em pouco tempo, a Moransa di Kultura está a ser também um processo conjunto de aprendizagem da independência – neste caso do direito de escolha, da autonomia da cultura e das suas organizações, desenvolvendo estratégias de mobilização de uma grande diversidade de recursos, procurando com a diversificação das dependências garantir a independência – aprendizagem partilhada pelos protagonistas, dos artistas às três gerações de guineenses que foram o público que se emocionou com peça de teatro Arus Femia, a simbologia do arroz e das mulheres na base de um país.
E, entretanto, vai continuar o projecto Moransa de Kultura, cofinanciado pelo CICL, e que é expressão de uma relação de cumplicidade desde há muito entre a ACEP e a TINIGUENA. Até à próxima Bienal muito há que imaginar e realizar para continuar a construir esta moransa: um mapeamento do património cultural, a criação da Biblioteca das Artes, a 1ª formação em gestão cultural do país (em colaboração com a Escola de Are e Ofícios do Quelele, bairro de Bissau), a construção de um Observatório da Cultura. Em paralelo são exploradas outras pistas, nomeadamente as que permitem cruzamentos entre cultura e economia, essencial para que a cultura viva e para que a dignidade dos artistas seja conquistada todos os dias – pão e dignidade são aliás uma síntese possível da frase de Cabral inscrita na parede de outra moransa, ali frente ao Forte d´Amura, construída no espaço improvável de uma prisão, que é desde 2012 a Moransa dos Direitos.
Bissau, terra de moransas, construídas e constituídas por pessoas que não querem esperar mais, e se juntam para sonhar, inovar e concretizar.
