
Anita Wasik

A economia criativa e as várias faces da laranja
Tânia Santos
Durante parte do século XX, a discussão sobre cultura e economia foi influenciada pelo argumento de Horkheimer e Adorno, de que a introdução de lógicas de mercado na cultura contribuiria para uma “indústria cultural” homogeneizadora, pouco experimental e pouco crítica. Sem negar os riscos associados a uma visão mercantil da cultura, a Unesco defenderia nos anos 1980, a necessidade de refletir sobre o papel das indústrias culturais no acesso à cultura e no diálogo intercultural, salientando a necessidade de atentar na dimensão económica para promover o desenvolvimento do setor (Unesco, 1982). Na década seguinte, assistiu-se à emergência de instituições públicas com a missão de promover as indústrias culturais, destacando-se as experiências pioneiras de articulação entre estratégias de dinamização cultural e reabilitação urbana em cidades do Reino Unido que inspiraram práticas de desenvolvimento urbano noutros países e que contribuiriam para a notoriedade internacional do conceito de “cidade criativa” (Landry & Bianchini, 1995).
No início dos anos 2000, Howkins (2002) e Florida (2003) contribuíram para colocar a criatividade no centro da discussão sobre cultura e desenvolvimento, apresentando-a como princípio inerente à “nova economia” e aos mundos do trabalho, tecnologia, inovação, cultura, ciência e organização do território. Adoptado pela ONU, o conceito de economia criativa, ou economia laranja, passou a mobilizar a Unesco e a UNCTAD que estimularam a discussão internacional sobre o tema, informando o desenho de políticas públicas para o setor, que viria a incluir as atividades ligadas à produção de conhecimento (I&D) e à transformação digital (Gerosa, 2022), também numa perspetiva de desenvolvimento (UNCTAD, 2010).
Atualmente, a UNCTAD, define a economia criativa como os “ciclos de criação, produção e distribuição que tiram partido da criatividade e do capital intelectual. Estas indústrias englobam atividades baseadas no conhecimento, centradas na cultura e no património, incluindo produtos criativos tangíveis e intangíveis com valor económico” (UNCTAD, 2024, p.111). Integram-se no setor, atividades tão diversas como a publicidade e o marketing, a arquitetura, o audiovisual, multimédia e a fotografia, o património cultural e natural, o design, o artesanato, a música, as artes performativas e visuais, a produção de software, videojogos e serviços Web e as atividades de Investigação e Desenvolvimento. Todavia, nos últimos anos, a discussão sobre a economia criativa tem vindo a adquirir novos contornos, não se tratando já da necessidade de reconhecer e promover o valor daquelas indústrias para o produto nacional e global, mas de aprofundar a discussão sobre o seu contributo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Efetivamente, o último relatório da UNCTAD (2024) evidencia a desigualdade internacional no acesso ao “potencial de oportunidades” da economia criativa, em favor dos países tecnologicamente mais avançados. Neste contexto, reconhecer o potencial da economia criativa para o desenvolvimento implica um olhar atento para o modo como a cooperação deverá contribuir para a redução das disparidades no acesso às potencialidades da “nova economia”, centrada na produção de informação, conhecimento e inovação, e a necessidade de melhores políticas internacionais nas áreas da educação, emprego, ciência, tecnologia e cultura, que permitam gerar emprego digno, em particular para os jovens.
A economia criativa tem também um papel importante na redução da pobreza, na inclusão e na sustentabilidade ambiental, reconhecendo-se a necessidade de aprofundar o estudo, e a visibilidade, dos contributos das organizações da economia social e solidária, e de implementar estratégias de cooperação internacional que fortaleçam as iniciativas criativas cujas lógicas ultrapassam a prossecução do lucro financeiro. Finalmente, sendo evidente a importância da digitalização em todas as esferas da vida das pessoas, cabe à cooperação internacional enfrentar os desafios decorrentes da utilização da inteligência artificial, em particular no emprego, e da desinformação, cujos impactos se têm sentido no agravamento dos conflitos armados, na erosão das instituições democráticas e da coesão social (Masavah & Turpin, 2024).
Torna-se assim, fundamental, reconhecer que a concretização do potencial de desenvolvimento da economia criativa requer um olhar atento sobre os seus impactos sociais, ambientais, culturais e políticos. Num tempo de incremento da desigualdade, de polarização social e política, de agravamento dos conflitos e de erosão do multilateralismo, o reconhecimento do contributo da economia criativa não pode ser desassociado da reflexão sobre a responsabilidade social e política do setor, que se apresenta fundamental na produção e disseminação de informação, ideias e valores, cabendo à cooperação para o desenvolvimento a responsabilidade de garantir que todas as vozes são ouvidas nesta discussão, em particular as dos países e comunidades do Sul.
Referências
- Florida, R. (2002). The rise of the creative class. Brilliance Audio.
- Gerosa, A. (2022). The hidden roots of the creative economy: a critical history of the concept along the twentieth century. International journal of cultural policy, 28(2), 131-144.
- Howkins, J. (2002). The creative economy: How people make money from ideas. Penguin UK.
- Landry, C., and F. Bianchini. 1995. The Creative City. London: Demos
- Masavah, V. M., & Turpin, M. (2024, May). Fake News in Developing Countries: Drivers, Mechanisms and Consequences. In International Conference on Implications of Information and Digital Technologies for Development (pp. 127-142). Cham: Springer Nature Switzerland
- UNCTAD (2024). Creative Economy Outlook 2024. UNCTAD.
- UNCTAD. (2010). Relatório de economia criativa 2010: economia criativa, uma opção de desenvolvimento. São Paulo: United Nations Conference on Trade and Development.
- Unesco. (1982). Cultural industries: A challenge for the future of culture. Unesco
Este bairro artístico cheira a tinta
Vanessa Ribeiro Rodrigues
O sol ainda não acabou de acordar, nesta manhã de 1 dezembro de 2018, em Maputo, e por isso deixa a sombra estender a sua cortina pelos corredores serpenteados do Bairro do Aeroporto, localizado na zona norte da cidade. João Timane é artista plástico e está distraído a olhar para as nuances de luz numa parede, enquanto me espera. O pintor leva-nos pelo bairro, galgando as ruas que um dia serviram de chão ao artista Malangatana, seu mestre.
Ainda é um lugar onde há muita concentração de artistas autodidatas, tem muita diversidade e há talento que poderia ser melhor aproveitado. Era preciso criar uma Associação.
Timane vive aqui, rodeado de dramaturgos, atores, “mestres” artistas plásticos, escritores, entre outros labores da arte de reinventar a labuta diária. Nasceu em 1991, é pai de Drica, estudou na Escola Nacional de Artes Visuais, em Maputo, e tem desenvolvido ateliers artísticos com crianças do Bairro do Aeroporto, inspirado pelo que Malangatana fez com a “Escolinha Vamos Brincar”.
Desde pequeno que era normal ver artistas a pintar à porta de casa. Isso marcou-me muito. Eu cresci vendo Malangatana. Cresci a pintar. É um bairro que cheira muito a tinta. Acho que a arte tem esta capacidade de fazer com que as pessoas se expressem e pode marcar muito o percurso de educação de uma criança.
Um homem passa com balões, outro homem está a fazer batik à porta de casa — técnica de tingimento e coloração de tecidos artesanais—, mais adiante, uma mulher entrança o cabelo de uma menina. O artista afirma que vive exclusivamente da sua arte e das formações. Gosta muito de Picasso, Malangatana, Naguib Elias, Roberto Chichorro, entre outros.
É um privilégio poder viver da minha pintura e ilustrações. Vendo para galerias, encomendas privadas, exposições, ilustro cartazes e livros, assim como capas de revista.
Membro do Núcleo de Arte de Maputo, ganhou em 2017 uma menção honrosa na Anual Mozart e foi vencedor do prémio Mozal na categoria de Artes Plásticas, em 2018. No ano seguinte, expôs “O mundo ao redor”, em Cantanhede, em Portugal. Em 2021, o jornalista Afonso Almeida Brandão A escrevia, no jornal “Evidências” sobre Timane: “a disciplina do traço, a riqueza das cores, a transparência e a luz, a técnica evidente e harmoniosa a envolver os seus trabalhos e, sobretudo, o seu talento”. Exemplos disso são O Retrato dum Povo trabalhador — um total seis pinturas em acrílico, que retratam o quotidiano de um povo que vive do trabalho—, ou algumas das obras disponíveis no Museu Virtual Google Arts & Culture como: Coração Exilado, Desejo dum Suburbano e Um Moçambique Próspero, que reflete sobre as relações sociais e a construção de um país democrático.
Há uma imagem muito arcaica sobre o que é Moçambique hoje, sobretudo nas redes sociais e nos média. Aquilo que me preocupa abordar no meu trabalho são as questões sociais, como a pobreza, a mulher, a forma como as tecnologias dominam os mais novos, a injustiça social, as questões de classe e democracia. Acredito que a arte pode criar memória sobre os tempos e expressar a cultura de um povo.
