Sustentabilidade

 

Inês Cóias

 

Sustentabilidade

Sara Moreno Pires

Após décadas a debater e refletir sobre o conceito de sustentabilidade, podemos talvez hoje ter mais consciência da beleza e do perigo da permanente disputa em torno dele.

No final da década de 1980 o conceito emergiu associado ao reconhecimento das consequências ambientais negativas e das crescentes desigualdades sociais nas trajetórias de desenvolvimento dos países. Desenvolvimento Sustentável, muitas vezes abreviado para Sustentabilidade, foi cunhado em 1987, pelo conhecido Relatório Brundtland “O Nosso Futuro Comum”, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, liderado por uma mulher (a Primeira Ministra da Noruega na altura, Gro Harlem Brundtland).

A humanidade tem a capacidade de tornar o desenvolvimento sustentável para garantir que assegura as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras em assegurar as suas próprias necessidades (Ponto 27, pág.24, Relatório Brundtland).

O conceito foi desenhado não como um fim em si, mas como um processo para tornar a humanidade mais justa com ela própria num Planeta a degradar-se. Emergiu de um alerta global para criar uma utopia comum: a necessidade de uma sociedade equitativa, interligada, renovada na ligação entre homem e natureza.

Da beleza desta utopia resultam os infindáveis debates sobre como operacionalizar e medir este conceito ou os processos democráticos e científicos para descodificar o seu significado para todas as pessoas e lugares. Há quem divida o desenvolvimento sustentável em três grandes dimensões (prosperidade económica, justiça social, equilíbrio ambiental), em quatro (adicionando a governação e capacidade institucional), em cinco (considerando a cultura como elemento central) ou até mais dimensões. Há quem considere também que esta definição em dimensões torna a visão do desenvolvimento sustentável numa sustentabilidade fraca, porque atribui a todas as dimensões o mesmo peso, assumindo de forma quase consensual que o equilíbrio entre elas é possível ou, pior, que esse equilíbrio é compatível com um modelo económico que já provou ser desajustado. Há, pois, quem considere que o conceito de sustentabilidade forte implica colocar no centro do desafio societal a Natureza e a forma como devemos cuidar da dimensão ambiental como o berço de todas as outras dimensões. Se não a preservarmos, os desafios sociais, culturais, económicos e institucionais serão muito mais exigentes e, quem sabe, inultrapassáveis mesmo.

As Nações Unidas, num esforço de recolocar este debate no centro da agenda política consolidou 5 P´s (Planeta, Prosperidade, Pessoas, Paz e Parcerias) e 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em 2015, no assumir da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Com a função de orientar práticas de governos, empresas, associações e de toda a sociedade, tem encontrado desafios substanciais para alcançar esses desígnios. A inesperada Pandemia da COVID-19 e as inúmeras guerras que despoletaram desde então têm tornado esta caminhada para 2030 difícil e imprevisível.

Do perigo desta discussão de quase quatro décadas vem a constatação da realidade de um mundo cada vez mais insustentável. Vivemos num mundo cada vez mais desigual, continuamos a não garantir acesso a necessidades básicas e direitos humanos de uma grande parte da população mundial, enquanto alcançámos bem-estar social, garantimos educação, acesso à saúde e a direitos fundamentais a uma outra ínfima parte dessa população. Ao mesmo tempo, a aceleração do impacto humano no planeta tem sido tão rápida, tão abrupta e tão intensa que não tem dado tempo à natureza para reagir e absorver, ou sequer para continuar a garantir condições ambientais essenciais à sobrevivência de todas as espécies: a população mais do que triplicou nos últimos 70 anos, a emissão de gases com efeito de estufa está num nível sem precedentes em milhões de anos, a desflorestação acentuou-se como nunca, a perda de biodiversidade atinge níveis de uma sexta extinção em massa, a poluição por plásticos, fertilizantes e consumo é hoje imparável. Podemos mesmo dizer que estamos perto da “bancarrota” ambiental, ou se preferirem, de um ponto de “não retorno”, aproximando-nos, por mão humana, do colapso da estabilidade de um sistema climático do qual dependemos.

O futuro aponta para um planeta ardente, sem capacidade de suportar a vida como a conhecemos hoje, e, portanto, incapaz de garantir bem-estar social, educação, saúde ou qualquer outro direito fundamental. Estamos a destruir o que nos mantém seguros a todos, a demolir as fundações de um clima estável, a nossa verdadeira casa comum, Património Comum da Humanidade. Usando a expressão de David Attenborough (2020: 105) “não é preciso ser um naturalista para saber que algo correu catastroficamente mal”.

Vivemos muito acima dos limites do único planeta que temos e que nos acolhe. Sermos sustentáveis parece uma utopia bem distante, mas devia ser a nossa realidade mais urgente. Afinal as utopias permitem-nos ver, pensar e descobrir o mundo de outra forma e desenhar caminhos infinitos para transformar a realidade presente. O que significa viver acima dos limites ecológicos, num mundo tão desigual? Como medir, avaliar e perceber esses impactos para idealizar desenvolvimento, bem-estar social e prosperidade para as próximas gerações? Como conceber um desenvolvimento que acima de tudo altere a noção de valor, da riqueza monetária e material, à riqueza natural e imaterial? Como traduzir uma dimensão planetária, una e interdependente, que partilhamos, em estilos de vida individualistas do dia-a-dia, na nossa relação com o outro e com a natureza, onde quer que nos encontremos?

Do desenvolvimento insustentável dos últimos anos ao desenvolvimento sustentável do amanhã parece ser ainda um passo de gigante. Desenvolvimento sustentável é no fundo a utopia perfeita para reinventar a humanidade, e com todo o conhecimento que temos hoje é a oportunidade para se ser astronauta na Terra. A partir do espaço, a fragilidade e insignificância da vida torna-se real, as fronteiras nacionais desaparecem e o sentido de unidade, interdependência e responsabilidade partilhada prevalece sobre individualismos ou conflitos entre pessoas e nações. O planeta revela-se como é, um todo sistémico, perdido num imenso universo. A consequência deste efeito é o nascer de um sentido único de partilha. O desejo de desenvolvimento sustentável torna-se tão óbvio quanto imperativo.

 

 

Composto orgânico-STP, uma aposta que dá frutos!

Ectylsa Sandy Bastos

CompostoOrgânico-STP é o sonho concretizado de Edgar Coelho Lima de 40 anos licenciado em turismo. Um negócio que surgiu depois da pandemia da Covid-19 em 2019 e nunca mais parou. “O meu objetivo é contribuir para uma agricultura sustentável e amiga do ambiente, uma agricultura que consiga reaproveitar o que já existe e fortalecer a terra para uma maior produção”, declara Eduardo.

Com a colaboração e parceria de três comunidades, nomeadamente Mateus Angolares, Santarém e Mesquita realiza-se a recolha de matéria prima, particularmente da casca de búzio de mato (o chamado caracol) e de cacau. Composto Orgânico-STP visa essencialmente a transformação de resíduo orgânico em composto orgânico (fertilizante biológico), nomeadamente, casca de banana que contém fibras, casca de café que é rica em nitrogênio, fósforo e potássio, casca de cacau que é rica em potássio e casca de búzio rica em cálcio e outros nutrientes.  Através de uma rede de clientes fixos como ONG Helpo, Projecto Compran, Programa Nacional de Alimentação Escolar, Apafai e algumas pessoas individuais que têm hortas caseiras, a empresa consegue escoar todo o composto que é produzido. O negócio quer apostar agora num outro tipo de produto: o de pó de casca de búzio queimado que pode ser utilizado na produção de ração animal, misturado com soja.

O Empreendedorismo social pode e tem jogado um papel importante no desenvolvimento económico e social de São Tomé e Príncipe e as pessoas estão a aderir cada vez mais aos fertilizantes naturais numa altura em que a preocupação global pelo clima é visível. Além disso, grande parte dos fertilizantes comprados são investidos em hortas escolares.

Alguns clientes usam os fertilizantes também para outros fins. Trata-se de uma forma de promover a agricultura sustentável e consequentemente a alimentação saudável. Outra ambição de Edgar Coelho é levar o composto orgânico a costa africana.  “Quero dentro de três anos levar a Composto orgânico-STP para todo canto do país e depois atingir a costa africana. Já comecei a fazer contactos e quero criar filiais do composto orgânico. O produto já é certificado internacionalmente, mas ainda não possui uma embalagem adequada com a nossa marca. Ainda não conseguimos isso. Os produtos estão embalados em sacos de plásticos, mas não numa embalagem apropriada com a nossa marca, esse é outro obstáculo que pretendo ultrapassar brevemente”, esclareceu.

Além de ser uma prática benéfica para o meio ambiente, a compostagem colabora para que as pessoas se tornem mais conscientes sobre seus hábitos de consumo e sobre a importância da sustentabilidade no país. A Composto Orgânico-STP tem procurado melhorar a produção agrícola nacional, ajudando na diminuição de importação de fertilizantes e adubos ao país e a proteger o meio ambiente. É um projecto que também veio ajudar a dar resposta a problemática de lixo que existem em São Tomé e Príncipe e que até ao momento as autoridades não conseguem solucionar.

A empresa trabalha na produção de composto orgânico numa base ambientalmente sustentável e usando recursos 100% nacionais. No momento todo o trabalho é realizado por ele e por um ajudante. No quadro do projecto REDES conseguiu-se um financiamento para a compra de uma moto-carrinha, o que tem ajudado na recolha de matéria prima.

Ao adotar práticas de compostagem, é possível criar um ciclo mais sustentável de produção e consumo, onde os resíduos orgânicos são vistos como um recurso valioso e não como um problema. Preservar esta riqueza natural é essencial para manter o equilíbrio ambiental, garantir o bem-estar das comunidades e promover um desenvolvimento sustentável.