
Ivone Ralha

Xenofobia
Marta Lança
Definida como aversão a estrangeiros ou a grupos culturais diferentes, num mundo cada vez mais globalizado onde o movimento e a circulação são constantes e necessários, a xenofobia prejudica a convivência pacífica entre seres humanos e dificulta o progresso social e económico das sociedades.
Podemos dizer que a xenofobia tem várias manifestações, desde preconceitos repetidos, o discurso do ódio, passando pelo erguer de muros e barreiras ao outro. As divisórias xenófobas podem ser mais ou menos visíveis na sua violência, mas determinam quem pertence a determinado território, quem pode ficar, quem é mais cidadão. É importante referir que a xenofobia nada tem de acidental, é uma construção manipulada pela ignorância, a cultura da ameaça, incentivando o medo, provocando nas pessoas um estado de desconfiança permanente. Assim, a xenofobia vai sendo alimentada por uma ficção política, mais ou menos subtil, que legitima o medo ao outro. Um outro racializado e despossuído, no qual se projeta a escassez, o risco, a “invasão”. A cultura do medo é, por sua vez, elaborada através de adjetivos em nada neutros, estereotipos, fake news e deturpação de factos, amplificação online de conteúdos falsos ou descontextualizados sobre imigrantes, notícias de jornal e opiniões nas redes que vão incutindo a tal desconfiança e hostilidade perante um suposto inimigo, alimentando a indignação e o medo. Nomeadamente, associando corpos migrantes à ameaça, certas religiões à maldição e ao atraso, certos grupos étnico-raciais a problemas, vendo os «outros» como brutos, irracionais e conflituosos, desumanizando-os.
Em vez da necessária hospitalidade, os migrantes vivem o estigma da ilegalidade, são expulsos e deportados. Em vez da inevitável interação entre diferentes culturas e nacionalidades, assistimos à crescente xenofobia sobretudo com a imigração não ocidental. Aqueles que se movem, fogem de guerras, da fome e pobreza, ou procuram condições de trabalho, são vistos como ameaça, alvo do medo e do ódio. Numa perspetiva economicista, tais populações migrantes e refugiadas são, na melhor das hipóteses, consideradas como mão de obra barata e disponível, até fazem aquilo que os «nacionais» rejeitam, o que lembra outros tempos. A história colonial repete-se ao se tratar certas pessoas como mercadoria. Ou como imigrantes de primeira ou segunda. No sistema capitalista, o migrante é ao mesmo tempo necessário e indesejado, trabalhador e bode expiatório.
Em vez de uma Europa mestiça e intercultural, com políticas públicas onde todos se sintam dignos e com condições de progressão e de ascensão sócio económica, o olhar xenófobo prefere não aceitar as diferenças que nos renovam e reinventam. Instrumentaliza a realidade, não a querendo enfrentar na sua complexidade tampouco o mundo nas suas dinâmicas globais. A xenofobia defende uma ordem fundada em mitos nacionais obsoletos, fecha-se em identidades estáticas, em bunquers anti-contaminação, como se a cultura fosse território sem trânsito, uma autenticidade a proteger, como se não respirássemos um ar mutante. Criminalizando-se o movimento, o acesso ao mundo e à vida digna passam a ser sectários e excludentes. Atravessar o Mediterrâneo, a selva do Darién ou sobreviver nas cidades é uma epopeia de horrores.
É caso para perguntar: teme-se o estrangeiro ou o nosso reflexo? A xenofobia é um espelho que projeta no outro aquilo que a nação nega em si mesma. A xenofobia é assim, um braço do racismo estrutural, do patriarcado e do colonialismo. O mundo organizado em dicotomias de centros e margens, as elites e o povo, o cidadão e o não cidadão (como se houvesse um cidadão padronizado e superior, como se algumas vidas valessem mais do que outras). Enfim, esta lógica institucionalizada de nós e os outros, não contribuiu em nada para a necessária empatia pela humanidade enquanto corpo comum.
A xenofobia manifesta-se quotidianamente na burocracia, na recusa de direitos e na negação do mundo como lugar em movimento. Para isso, a fronteira prolifera. Entendida não apenas como linha geográfica que divida, a fronteira é algoritmo, é checkpoint, são dispositivos móveis, tecnológicos, juridicamente flexíveis, capazes de selecionar, filtrar e explorar. As fronteiras móvei estão bem articuladas com o capitalismo contemporâneo para extrair valor de quem migra, transformando a precariedade em força produtiva e, ainda assim, desprezar os mais vulneráveis.
Pensemos na necropolítica, como elaborada por Achille Mbembe, que decide quem pode viver e quem deve morrer, quem tem o direito de circular e quem será detido, invisibilizado ou descartado. O estrangeiro indesejado, o sem-documentos, o corpo negro ou árabe, são símbolos vivos daquilo que o mundo quer excluir para sustentar sua própria imagem civilizada. Nesse regime, a xenofobia é, mais do que medo, uma técnica de governo.
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O que podemos fazer para contrair essa xenofobia que se vai instalando? Cada vez é mais importante defender a hospitalidade enquanto justiça e não caridade. Praticar gestos de acolhimento, abrir a casa, metafórica e literalmente, organizar redes de apoio. Reconhecer e aprender com outras formas de ver, narrar e existir. Praticar a escuta, traduzir, desmontar as máquinas de dividir pessoas. Imaginar políticas de convivência que não reduzam corpos a funções nem a ameaças.
Se a xenofobia insiste em hierarquizar o mundo, um mundo imóvel onde só existe o nosso espelho, devemos praticar o cuidado. Contra as políticas de exclusão, inventar políticas de afeto. Contra o medo, prática solidariedade. Contra os muros, construir pontes. Não se trata de idealizar o outro, nem de ignorar conflitos, mas de reconhecer que a convivência é sempre um exercício de incerteza, de tradução, de negociação, de dissenso, e que isso é parte da beleza e da tensão do comum.
Num tempo em que os ventos sopram para o fechamento, a cooperação é um gesto político e vital. Porque ou fazemos do mundo uma casa possível para todos, ou aceitaremos viver cercados por fantasmas que deixámos afogar, morrer e esquecer.
É uma época de significativos desafios na cooperação para o desenvolvimento que depende, em grande parte, da capacidade de construir laços de confiança e solidariedade entre nações e comunidades. A xenofobia cria barreiras que impedem o diálogo e o entendimento mútuo, essenciais para o compartilhamento de conhecimentos, recursos e melhores práticas. As comunidades que acolhem imigrantes e refugiados, por exemplo, podem beneficiar significativamente do seu potencial humano e cultural, se essa troca não for bloqueada por preconceitos e estereótipos.
Além disso, a xenofobia tem implicações diretas nas políticas de desenvolvimento. Quando os líderes políticos e as instituições adotam uma postura xenófoba, isso pode resultar em legislações que excluem ou marginalizam grupos de pessoas, comprometendo esforços de inclusão e desenvolvimento sustentável. A cooperação internacional, crucial para enfrentar desafios globais como a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, requer um ambiente propício à colaboração, onde todos se sintam valorizados e respeitados.
Portanto, é imperativo que as iniciativas de desenvolvimento incluam estratégias para combater a xenofobia. A educação e a cultura são áreas cruciais para sensibilizar e promover a diversidade, combatendo os preconceitos e a distorção sobre determinados grupos. Assim, projetos que incentivem o intercâmbio cultural e a participação de diferentes comunidades nas tomadas de decisão são fundamentais para criar um tecido social mais coeso e resiliente.
Em suma, a luta contra a xenofobia nunca foi tão urgente para um horizonte mais justo e equitativo.
Verdade ou xenofobia?
Paula Cardoso
Colecionamos letras, juntamos sílabas, descobrimos palavras e, dentro da mesma repetição humana que nos programa para andar, aprendemos a ler e a escrever.
O nosso vocabulário expande-se à medida do processo de escolarização e socialização, e, com ele, ensinam-nos a filtrar palavrões, a priorizar a razão sobre a emoção, e a valorizar os mais eloquentes.
Sem grande margem de manobra para quebrar padrões, desde cedo ajustamos linguagens e começamos a escrever a nossa história de vida dentro dos espartilhos do “certo” e “errado”, que, por mais apertado que esteja e seja, aceitamos vestir para caber no tecido social.
Contestar esta engrenagem implica parar para medir: quanto do que somos fica de fora dessa malha, coartando-nos verdades que sabemos inconvenientes e até disruptivas?
A xenofobia é uma delas. Conforta-nos encará-la à luz da sua etimologia, em vez de a confrontarmos pelas trevas que expõe da nossa humanidade.
Só assim se compreende que insistamos na ideia de “medo do estrangeiro” – a partir do conhecimento de que o termo xenofobia deriva das palavras gregas xenos (estrangeiro) e phobos (medo) –, quando salta à vista que a relação com o “estrangeiro” que pretendemos ilustrar extravasa o significado da palavra. Desde logo, porque não é o medo que alimenta os comportamentos entendidos como xenófobos, mas sim o ódio racial e uma ideia de supremacia ocidental.
De outro modo, como explicar que pessoas de “pele clara, loirinhas e de olhos azuis” não causem “medo” por serem estrangeiras, e motivem mesmo o pronto acolhimento de países europeus, como aconteceu com os refugiados da Ucrânia, em 2022? E como compreender que, pelo contrário, nesse mesmo ano cerca de 40 cidadãos africanos tenham sido assassinados pela polícia, quando tentavam entrar em Espanha, a partir do enclave de Melilla?
Além do ódio declarado e executado contra quem tem a pele mais escura – tornando xenofobia um subterfúgio para não dizer racismo –, o termo evidencia a dificuldade de o chamado Norte Global reconhecer o Sul Global como par.
Mais uma vez, não é o “medo do estrangeiro” que está presente quando em Portugal se rejeita o brasileiro e se aceita o americano. Aliás, nunca houve “medo” da entrada de novelas e músicas tupiniquim no país, nem receio de explorar o Brasil como destino turístico.
O que há, importa realçar, é ódio racial disfarçado de fobia. Mas, enquanto nos continuarmos a esconder da verdade do racismo, por detrás da meia-verdade da xenofobia, persistiremos no erro de focar a análise na relação com “o outro”, em vez de olharmos para as desumanidades históricas em que assenta “o nós”.
Fazê-lo implica ver que Portugal não teve “medo” do estrangeiro quando se lançou na expansão marítima, fabricou o tráfico transatlântico de seres humanos, escravizou populações e colonizou países. Implica igualmente reconhecer que, da mesma forma que no passado se hierarquizaram pessoas em função de raças para justificar crimes contra a humanidade, hoje depuram-se palavras para acobertar crimes de ódio racial. E esta é a verdade da mentira que se colou à xenofobia.
