José Alves

 

Word Wild Web (WWW)

Óscar Mealha

Na origem da tecnologia internet a interface com o utilizador não era gráfica, era suportada por um paradigma de entrada de comandos por texto (interface de utilizador textual) para realizar uma miríade de tarefas no sistema computacional isolado ou em rede. Dito isto, compreende-se que nesta era da internet, pré WWW, os utilizadores eram especialistas e conhecedores de uma biblioteca de comandos para controlar e usar a tecnologia e a rede internet ao seu dispor.

A invenção e disponibilização da tecnologia WWW em espaço público para uma utilização gratuita foi absolutamente disruptiva e acrescentou uma camada tecnológica à internet que mudou o paradigma de interação com o utilizador desta rede. Com a criação da WWW, a internet passou a ter uma interface gráfica com o utilizador, suportada por uma linguagem visual para facilitar e democratizar a sua utilização. O pressuposto de criação da tecnologia WWW e a estratégia adotada para a sua disseminação foi determinante para o progresso galopante que se deu neste ecossistema de mediação tecnológica.

Em agosto 1991, Timothy John Berners-Lee (Tim Berners-Lee) e sua equipa, disponibilizaram a partir da Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN), onde trabalhava, o primeiro site WWW para todo o mundo. Para que isto fosse possível Tim Berners-Lee inventou uma linguagem para construir o conteúdo de uma página WWW inspirada na relação do hipertexto e internet a que chamou linguagem HTML (HyperText Markup Language). Para que cada máquina cliente, onde são visualizadas as páginas WWW, comunicasse com o servidor onde toda a informação WWW é armazenada, foi inventado o protocolo de comunicação HTTP (HyperText Transfer Protocol). Por fim e para que seja possível visual e interagir com as páginas WWW foi ainda desenvolvido um programa informático para navegar na WWW (Browser WWW). Esta tríade tecnológica, fundamental para que tenhamos a WWW ainda hoje, o protocolo HTTP, a linguagem HTML e o primeiro navegador WWW, foram disponibilizados publicamente sem qualquer tipo de royaltie ou patentes. Para gerir a WWW, o seu desenvolvimento e as normas necessárias para um uso correto e livre da WWW, o Tim Berners-Lee resolveu fundar a World Wide Web Consortium (W3C). Esta organização integra atualmente 350 membros de tipologia muito diversa, desde organizações não-governamentais, empresas, instituições de ensino superior, etc.

Tim Berners-Lee foi ainda fundador da Fundação World Wide Web, organização dedicada a melhorar continuamente a WWW e zelar pela sua disponibilização livre, aberta e democrática. Incluía nos seus serviços a disponibilização do instrumento estatístico Web Index que traduz um conjunto de indicadores com informação sobre o impacto social, económico e político da web. Esta organização sessou a sua atividade em setembro de 2024 e o Tim Berners-Lee está agora dedicado a desenvolver o Solid Protocol para uma web mais segura, onde os dados pessoais e a segurança das comunidades são uma absoluta prioridade.

Com o advento das cidades digitais (Digital Cities) na década de 90 (em Portugal a cidade de Aveiro foi a escolhida para aplicar e testar o conceito em 1999), que mais tarde se foi transformando no movimento das cidades/lugares inteligentes (Smart Cities), foi necessário clarificar o conceito de Dados Abertos (Open Data). Neste contexto, em 2006 Berners-Lee decide divulgar o que chama o “5-star deployment scheme” para orientar a forma como um repositório de dados (base de dados) abertos pode ser construído, organizado, arquivado e disponibilizado. O conceito de cidade ou lugar inteligente persiste, assim como o de dados abertos continuam a proporcionar oportunidades de gestão da orgânica dos lugares de uma forma bastante eficaz. Muitos destes serviços foram, ou ainda são, suportados por tecnologia WWW de uso completamente aberto e público, outros recorrem ao conceito de “registo do cidadão” obrigando os utilizadores a definirem o seu perfil, login e senha de segurança, para conseguirem ter acesso ao serviço.

A última década do século XX foi marcada por novos serviços suportados pela WWW. Antes da viragem do século ocorreu com bastante sucesso, fundamentalmente na américa do Norte, o conceito de comércio eletrónico para venda de produtos novos. Dentro deste contexto e à escala mundial, também ocorreu com muito sucesso um serviço de venda de artigos em segunda mão. Este tipo de serviços WWW enquadrava-se na lógica de plataforma online de vendas e solicitando sempre que os respetivos utilizadores estivessem registados, curiosamente com perfis reais ou fictícios. Contudo nada disto alterava o fluxo do negócio porque desde que existisse uma morada para entregar o artigo e uma forma de pagamento, habitualmente um cartão de crédito validado, as transações faziam-se, e continuam hoje em larga medida a fazer-se desta forma. Este detalhe, de vendas e compras à escala mundial, com a única mediação da WWW, foi altamente disruptivo para imensos organismos de diferentes países, mas altamente vantajoso para qualquer cidadão do mundo com acesso à tecnologia WWW e capacidade económica para operar neste mercado virtualizado no acesso a produtos físicos. Importa ainda sublinhar uma caraterística única deste serviço WWW – a avaliação social do artigo comprado e a qualidade do serviço de venda prestado. Esta informação social, que cada utilizador-comprador deixa na plataforma para que outros utilizadores possam consultar e tomar as suas decisões, de aquisição de um produto específico ou compreender a qualidade do serviço de venda prestado, é absolutamente único e caraterístico do que foi proporcionado pela tecnologia WWW ao serviço de um interesse social.

Na viragem do século XX para o XXI a tecnologia WWW proporciona a ocorrência das suas primeiras redes sociais, muito suportadas pelo acesso via computador portátil ou de secretária, por ainda não existirem os smartphones conforme os conhecemos hoje. A grande diferença destas novas redes sociais introduzidas pela WWW foi a interface gráfica e toda a sua estrutura de serviços direcionados a utilizadores muito jovens, com idades inferiores aos 14 anos, ou outros sem competências computacionais. Estas redes manifestaram desde logo enormes benefícios e problemas na geração e partilha de conteúdo, nomeadamente multimédia. Os jovens não tinham formação então para este tipo de partilha, assim como hoje, passados +20 anos, alguns ainda não têm.

SITOGRAFIA

  • World Wide Web Consortium (W3C): https://www.w3.org/
  • World Wide Web Foundation: https://webfoundation.org/
  • Solid Protocol: https://solidproject.org/
  • Open Data 5-star deployment scheme: https://www.w3.org/DesignIssues/LinkedData.html

 

WWW

João Pedro Pereira

Como aconteceu com quase todas as grandes invenções, a World Wide Web transcendeu extraordinariamente o fito de quem a criou. Impeliu a massificação da Internet e inaugurou o mundo informacional em que vivemos. Encurtou distâncias, aproximou pessoas e povos, interligou ideias. Deu azo a outras invenções transformadoras, a crescimento económico e a avanços científicos, tecnológicos e sociais. O mundo digitalizado (o que inclui o mundo físico transformado por tecnologias de comunicação digital) abarca a grande maioria da Humanidade, mesmo que os benefícios sejam díspares consoante as geografias.

Este fenómeno não foi inteiramente virtuoso. Trouxe novas fraturas. A promessa de ágora global foi concretizada, mas numa versão pervertida, em que a verdade é relativa e debatível. Estamos hoje, em alguns aspectos, pior; incluindo no que diz respeito à robustez das democracias. As tecnologias de informação têm estado ao serviço do progresso, da justiça e da liberdade tanto quanto da opressão e tirania. Também trouxeram assimetrias económicas: das dez pessoas mais ricas do mundo, apenas duas são de setores que não o tecnológico; não é o facto mais relevante, mas é simbólico.

Isto aconteceu a uma velocidade que tornou difícil integrar as mudanças. A Revolução Industrial demorou cerca de um século. A viragem provocada pela Internet e tecnologias conexas aconteceu num quarto desse tempo. Se o padrão da História se mantiver – e tudo indica que sim – o próximo capítulo terá mudanças mais rápidas.

Nos tempos próximos, vamos assistir a uma expansão da rede digital. Seja pela contínua adesão de mais pessoas, seja pelo aparecimento de novas tecnologias, que vão permitir comunicar e interagir com o mundo de formas cujas consequências não antevemos. A conectividade de objectos que eram antes desconectados, a robotização e autonomia das máquinas, os sistemas de realidade virtual e aumentada, e a inteligência artificial mais sofisticada (talvez a caminho de uma inteligência artificial geral) vão catapultar-nos para um mundo diferente – e não necessariamente mais próximo ou justo.

Este conjunto de tecnologias é um instrumento coletivo da Humanidade. Mas só uma pequena parte está sob alçada pública e só uma parte ainda mais pequena é orientada por princípios democráticos. A governação deste novo mundo será pelo menos tão caótica e dispersa como atualmente. E a possibilidade de uma rede que divida mais do que una é real. A tecnologia de implantes neuronais está já a inaugurar a simbiose humano-máquina. Abre a possibilidade de uma era com uma Humanidade dividida entre aqueles que têm uma ligação direta entre a sua própria biologia e a infraestrutura de informação, e aqueles que dependem de aparelhos externos para isso. Sabemos de antemão as linhas geográficas e económicas ao longo das quais essa divisão será erguida, se deixarmos que isso aconteça. A pergunta hoje não é se o mundo será melhor por causa da rede global, mas como podemos tentar garantir que será.