
Dário Pequeno Paraíso

Um “Não Lugar”, um “Lugar Imaginário” ou um “Bom Lugar” ?
Rogério Roque Amaro
É do conhecimento geral que Utopia é uma palavra de origem grega, composta por um prefixo de negação (“οὐ“, no grego antigo, que se lê “u”) e pelo nome “lugar” (“τόπος“, no grego antigo, que se lê “topos”), dando origem à palavra “utopia” (“Ουτοπία”, no grego actual), com o significado de qualidade do “Não Lugar”, ou “lugar inexistente”.
Também se sabe, em geral, que a palavra foi usada e dada a conhecer pelo filósofo e político inglês, Thomas More, na sua principal obra, escrita em latim e editada, pela primeira vez, em 1516, em Lovaina (Bélgica), com o título “Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia”, que se pode traduzir por “Sobre a melhor das repúblicas e a nova Ilha da Utopia – um verdadeiro livro de ouro, não menos benéfico do que divertido, pelo ilustre e eloquente Thomas More, cidadão e vice-xerife da famosa cidade de Londres”, mais conhecido simplesmente por “Utopia”.
O livro contém duas partes ou “livros” e, segundo alguns autores, terá sido inspirado no livro “A República” de Platão, mas o autor diz-se antes inspirado nas descrições feitas e nos diálogos supostamente mantidos com uma personagem ficcionada, o “marinheiro português”, Rafael Hitlodeuo, que “conta” a sua experiência de 5 anos, numa ilha, chamada Utopia, no “Novo Mundo”.
Nessa ilha (um “Lugar Imaginário”), viver-se-ia num novo tipo de república, descrita no “Livro Dois”, sem propriedade privada e com uma vida comunitária, sem desigualdades, uma espécie de “sociedade perfeita”, em profundo contraste com as injustiças sociais e intolerâncias (nomeadamente religiosas), que Thomas More criticou, no “Livro Um”, na sociedade inglesa.
Desse modo, a Utopia seria um “Bom Lugar”, um “Lugar Perfeito” e desejado, curiosamente podendo corresponder a uma outra construção possível de origem grega, a partir do prefixo “εὐ” (que se pronuncia “eu”, no grego antigo), que significa “bem” ou “bom” e da palavra “τόπος“, ou “lugar”, o que daria “Eutopia”, ou “Bom Lugar”, pelo que a Utopia seria, na verdade, uma Eutopia, correspondendo, desse modo, muito melhor ao “Lugar Perfeito Desejado”.
Para que serve a Utopia ?
É conhecida, por outro lado, a referência que Eduardo Galeano fez à resposta que um seu amigo, o director de cinema argentino, Fernando Birri, deu a um estudante, que lhe perguntava “Para que serve a Utopia ?”: “”Ela está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos, mais adiante. Por mais que eu caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar.” (Galeano, E., 2001. Las Palabras Andantes. Buenos Aires: Catálogos, S.R.L., p. 230).
Essa é a grande força da Utopia – jamais nos resignarmos, jamais desistirmos, jamais desanimarmos, sobretudo nos momentos em que o desânimo mais nos assola. Nunca deixar de caminhar, em busca e na construção do sonho concretizável, ainda que nos possa, inicialmente, parecer impossível. A Utopia é a força do desassossego, é sempre querermos ir mais além.
A Utopia contras as distopias actuais
A palavra “distopia” também tem origem no grego e significa literalmente “lugar mau”. Exprime a ideia oposta a utopia, referindo-se a um “lugar imaginário”, sujeito a opressões, injustiças sociais, autoritarismo e condições desumanas. Na verdade, várias tendências actuais parecem encaminhar a Humanidade e a Vida, em geral, para a catástrofe e para o caos: alterações climáticas; perda da biodiversidade, a níveis alarmantes; aumento galopante das desigualdades sociais; afirmação agressiva do “individualismo possessivo”, em conexão com as propostas do neoliberalismo; crise muito preocupante das democracias, com emergência crescente de regimes autoritários e iliberais; captura da democracia pelos poderes económicos; intolerâncias e fundamentalismos culturais e religiosos; destruição dos territórios rurais, urbanos, ribeirinhos e costeiros; sobreposição da “sociedade da informação” e da “inteligência artificial” ao conhecimento crítico, autónomo e emancipatório; perda de referências éticas, como a solidariedade (ecocêntrica), a equidade, a democracia, a sustentabilidade e a transparência…
As sociedades actuais parecem encaminhar-se drasticamente para distopias de destruição, de ditaduras iliberais (ou seja, em regimes formalmente democráticos), de intolerâncias, de desigualdades e de egoísmos destrutivos.
Mais do nunca, precisamos de Utopias, que resistam, que abram novos desafios e caminhos e que semeiem a esperança, que recusem a tirania das distopias, que nos querem impor.
“O pessimismo da inteligência não deve abalar o optimismo da vontade”, esta é uma frase do romancista francês Romain Rolland, que foi citada e ficou conhecida e foi desenvolvida pelo politólogo, filósofo, ensaísta e jornalista italiano, Antonio Gramsci (artigo de jornal não-assinado, «Discorso agli Anarchici», na edição semanal de 3-10 de Abril de 1920, no L’Ordine Nuovo, ON, n.º 43, p.487-492).
Se, por um lado, o “pessimismo da razão” nos permite esclarecer as ameaças e os riscos que corremos e para que destruições nos estão a conduzir, o “optimismo da vontade” nos deve impelir e motivar para a Acção Transformadora, capaz de abrir e construir caminhos de esperança e Utopias libertadoras e inspiradoras. Nesse sentido, as Utopias devem-nos guiar e mobilizar, para que nunca desistamos e continuemos a CAMINHAR, sobretudo em momentos como os actuais, em que corremos o risco de nos deixarmos tolher pelo “pessimismo da razão” e da crítica.
Utopias em Acção
Há cerca de sete anos que animo um programa na Rádio (web) Movimento, intitulado precisamente “Utopias em Acção”. Nele, dou conta de projectos, iniciativas e dinâmicas, que têm concretizado Utopias, em particular nos domínios da Economia Solidária e do Desenvolvimento Comunitário, por quem nunca desistiu de CAMINHAR, pondo em prática as suas Utopias e mostrando-nos os caminhos da Esperança. Nunca me faltaram projectos e iniciativas para contar!
Corpo Gesto Palavra Lugar
Luís Carlos Patraquim
Deu ao seu personagem o nome de Rafael. Ele, Thomas Morus, “cidadão e xerife da nobre cidade de Londres”, fez publicar “na soberana Universidade de Lovaina”, no ano do Senhor de MDXVI, uma obra intitulada “Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia” [1]. O Chanceler de Henrique VIII não podia imaginar que um título tão extenso, jocoso quase, se reduziria à última palavra que nele consta, Utopia. A seu favor, invoquemos a tradição desse século de navegações sem culpar os tipógrafos por terem concebido frontispícios desenhados com a mesma majestade com que os cantoneiros esculpiam os pórticos das catedrais. A majestade filosófica do “livrinho” de More, que era amigo de Erasmo de Roterdão, a partir de um neologismo do grego clássico, preside-nos até hoje. Um neologismo contra o gene egoísta.
Que a imaginação e realidade não se excluam e que haja um modo de realizar no mundo a utopia concreta de que falava Ernest Bloch. As pulsões do humano, em todas as suas dimensões, presidem ao “melhor uso”, se assim nos podemos exprimir, que se pode aplicar à noção de Utopia. Thomas More descreveu uma sociedade ideal. Situou-a numa ilha como um não-lugar aberto à sua possibilidade de um lugar, a de pensar um governo, uma politeia, uma ideia de Justiça.
Neste ano de 2025, em que as placas tectónicas da geopolítica e da geoestratégia, se entrechocam e onde a novilíngua, descrita por George Orwell, é um dos instrumentos da disrupção para uma engenharia do caos, a pulsão utópica serve para modelar e suster a velocidade. O GAFA e o tecnofeudalismo estão entre nós. Ancorados em invenções identitárias que não escondem o seu projecto hegemónico e predador, eles configuram uma precipitação que exclui.
Dadas as muitas experiências históricas, o neologismo de More, foi alvo de exaltações e de suspeições. Quis o sublime que a Cidade não pode oferecer e configurou modelos totalitários. Estes modelos rondam-nos hoje. Mas manteve a sua pregnância, tanta, que usamos o termo distopia como um negativo da imagem , às vezes difusa, das muitas formulações em que a Utopia é pensada e praticada. Que seja concreta, hoje!
Essa concretude inclui um corpo, um gesto, uma palavra, um lugar. Propicia uma condição nómada que faz de cada comunidade que é ou há vir, uma centralidade de conhecimento e de troca. Multímodas são as gramáticas do habitar e é no rosto inteiro do outro que nos devemos demorar para mutuamente nos conhecermos.
A Utopia concreta é contra a troca desigual, a condição subalterna, os jogos perversos dos centros e das periferias. A Utopia concreta é contra a moeda humana.
[1]
“Um pequeno livro verdadeiramente de oiro, tão útil quanto agradável, sobre qual o melhor estado de uma república e da nova ilha Utopia” – tradução para português do título em latim da obra de Tomás Morus.
